10/11/2014

Transferência negativa, silêncio e amor

Salvador Dali, Weaning of Furniture Nutrition, 1934
Paola Salinas

Sabemos que uma experiência analítica se inicia e se mantém pelo amor, pelo estabelecimento de um laço pautado na transferência amorosa que, aos poucos, cede lugar ou se acopla ao amor ao saber e, finalmente, ao amor ao inconsciente. Uma passagem da vertente imaginária à simbólica.
Inicialmente uma análise pode ser fonte de grande satisfação, advinda do sentido e do próprio deslizamento dos significantes. É o tempo da descoberta de ideias e sentimentos não conhecidos, de explicações para comportamentos aparentemente sem conexão, e novas conexões entre palavras e atos. A fala, que então vai articulando o sentido, provê explicações para o sofrimento e para a angústia.
Ama-se o que se descobre, ama-se o trabalho e ama-se o analista.
Em alguns casos, pequenos desajustes na suposta correspondência desse amor – perceptíveis em um tom de voz inesperado, um atraso, um silêncio, uma ausência ou em um comentário interpretado como “mal vindo” – são suficientes para que esse amor vacile e se questione a eficácia do trabalho, as intenções do analista e o curso da vida. Neste ponto, é necessário um passo além da demanda de amor e, então, o amor ao inconsciente pode novamente impulsionar o trabalho com um menos de gozo relativo ao sentido enfatizando a produção do saber inconsciente, saber furado por excelência.
Se a análise segue seu trajeto, é inevitável que estanque no ponto onde deslizamento significante se depara com um ponto de real que não reenvia a outro significante. Não é mais possível satisfazer-se com o sentido advindo do inconsciente, há um limite na decifração.
O analisante pode ainda apostar no dispositivo e colher efeitos em relação ao seu gozo, para os quais não encontra uma explicação. Estes efeitos podem ser tomados como positivos ou libertadores pelo analisante, ainda que desprovidos de uma articulação a um saber. Mas, também podem ser incômodos, angustiante, e trazer com eles novamente a dúvida em relação à análise e ao analista.
Podemos pensar no surgimento da transferência negativa a partir dos primeiros desencontros na reciprocidade do amor suposto, o que coloca o analista sob suspeita. Quando o sujeito insiste na transferência e na análise pela suposição ao saber – e não mais por uma via imaginária de reconhecimento pelo amor do analista –, o trabalho avança na relação com a causa e suporta-se melhor o vazio.
Contudo, também a garantia do saber claudica; não há saber a ser obtido que elimine o real da pulsão. Neste ponto, não se espera mais uma resposta do Outro para dizer da satisfação mais íntima, marca de uma solidão extrema. Como então amar? Como endereçar algo a alguém?
Quando não há mais nada a se dizer, o silêncio mortífero pode fazer o sujeito recuar, recolher-se e não querer saber mais nada disso. Contudo, quando o amor não se articula mais à suposição de saber, posto que o analista ocupa então outro lugar, aposto que um amor mais digno poderia recolocar a transferência quando esta suposição de saber cai. Nesse momento, defrontado com sua solidão, o sujeito pode fazer uso de um laço que não garante nem explica, mas que está lá como possibilidade. Suportar esse silêncio, que pode ser mortífero, e a não palavra que se colocam nesse ponto de real, permite ir além da transferência negativa e, como efeito do atravessamento da fantasia, seguir num novo laço amoroso na vida e na análise.
Creio que somente é possível amar na medida do dar o que não se tem, não sem antes ter experimentado a angústia da não resposta sobre a existência. Ponto que marca a vida e o percurso na análise.
Assim, ao final, um laço pode ser restabelecido e, por que não dizer, um laço amoroso, que encontra outra cara, tanto no amor da vida cotidiana, quanto no seio da Escola, quando se escolhe endereçar a ela seu pequeno achado do final.
Do silencio ao novo amor, uma aposta viva, que pode fazer frente à mortificação do gozo inexplicável que habita e incita cada um de nós.


REREFÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Miller, J.-A. La transferencia negativa. Buenos Aires: Tres Haches, 2000.
NICÉAS, C. A. O amor de si. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.