10/11/2014

Ressonâncias III - A escrita do trAuma

Capa
O horizonte epistêmico de Primo Levi a escrita do trauma é aquele do testemunho. A pergunta que  orientou e permitiu a articulação entre o campo da literatura e aquele da psicanálise, é uma pergunta sobre os confins da representação: como o escritor enfrentou a dimensão absolutamente traumática da experiência concentracionária, em sua opacidade e ilegibilidade?
De quais recursos de linguagem se serviu? O que foi possível disto transmitir? Neste livro, meu percurso de leitura e de escrita se fez por meio do entrelaçamento e cotejamento de passagens da obra e de fragmentos de vida, transmitidos através das entrevistas concedidas pelo escritor durante sua vida. O testemunho de Primo Levi, tal como lido por Lucíola Macêdo, se tece numa zona entre dois: entre o poético e o político. Tais termos constituem, em sua obra, não uma relação de oposição ou exclusão, mas uma relação de extimidade.
Antônio Teixeira, quem redigiu a apresentação do livro, extrai de sua leitura algumas questões e uma direção: “Lucíola Macêdo parece dirigir ao campo de concentração o olhar do Angelus Novus de Paul Klee, evocado por W. Benjamin em sua nona tese sobre o conceito de história: onde se busca uma cadeia de acontecimentos, só se vê “uma catástrofe única que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés”. Como testemunhar da pura ruína, desse avesso de qualquer possibilidade de edificação, quando nosso discurso procede por montagens? O testemunhar aqui se coloca na defasagem entre a ruína traumática que afeta o pensamento e o que pode o pensamento disso elaborar. Por isso, seu livro se mostra atravessado pela questão de uma língua do testemunho. Como testemunhar da ruptura sem por que do trauma, senão através daquilo que, na língua, fragmenta e silencia a continuidade do discurso representativo?”.
Romildo do Rêgo Barros, em seu prefácio, nos diz: este livro “trata essencialmente de psicanálise, embora percorra outros tipos de experiência. Ele se inicia com a coisa nazista, na companhia de Primo Levi e de alguns outros, em seguida considera a Coisa a cuja dignidade um objeto pode se elevar na sublimação; e culmina na Coisa da qual a experiência do passe é a expressão. Nos três casos, trata-se, no fundo, de expor quê noção de testemunho pode-se extrair. O testemunho sobre aquilo que surgiu como limite do humano em um campo de concentração, sobre aquilo que Jacques Aubert, citado por Lucíola Macêdo, chamou de “uma catástrofe significante sem precedentes”; o testemunho sobre a obra de arte, ou melhor, o testemunho dado pela própria obra de arte; e, finalmente, o testemunho sobre o tratamento do real próprio da análise, que a experiência do passe, em um dispositivo especial, propicia. Além disso, o livro mantém um laço com o funcionamento do dispositivo analítico, que, inventado por Sigmund Freud, pôs em cena há pouco mais de um século uma relação de porosidade entre sujeito e objeto, que só mais tarde se tornaria patente na cultura. Com o seu artifício clínico, que aparentemente visava as tragédias, dramas e farsas da família burguesa, e que foi a ocasião definitiva para se pôr em palavras a estrutura da fantasia, Freud nos dá condições, quando interpretado por Lacan, de entender melhor o mundo de hoje e o que se passa além das paredes da família. Paredes que, pelo que vemos, já estão parcialmente arrombadas. São questões, como se vê, decisivas, das quais depende o acesso da prática analítica aos novos e futuros tempos”.