10/11/2014

Ressonâncias II

O Trauma na Psicose[1]
Julia Solano Martins
Associada do IPB – Seção Bahia

O conceito de trauma que em grego significa ferida; está presente em toda a obra de Freud. Encontramos " trauma " no início de sua teoria , como  consequente a uma experiência sexual traumática prematura ". Um determinado evento de cunho sexual promoveria um excesso de excitação que deixaria uma marca no corpo do sujeito, marca esta que só seria ressignificada em uma situação posterior, no momento do encontro com um segundo acontecimento que produziria o trauma. 
Entre esses dois momentos estaria o recalque. Nesta perspectiva, o recalque seria o mecanismo que tornaria possível a ocorrência do trauma, fato que inviabilizaria pensarmos em articulá-lo à psicose, na medida em que não há recalque nesta estrutura psíquica.
Ao longo da sua obra, no entanto, o conceito de trauma vai passando por diversas reformulações, quando a partir de 1920, no texto Além do Princípio do Prazer, Freud produz uma virada conceitual passando a aponta-lo como interno à estrutura psíquica. Este ponto torna-se ainda mais claro quando retomamos o seu texto intitulado de Inibição, Sintoma e Angústia. Neste trabalho, as causas da angústia traumática são explicadas economicamente tomando o desamparo do nascimento como estruturalmente traumático na vida dos indivíduos. Assim, o trauma não seria mais consequência de um evento exterior ao sujeito, mas a porta de entrada para o mundo psíquico.
Esta formulação freudiana acerca do trauma já em um momento mais avançado do seu ensino, se aproxima do conceito de troumatisme, formulado por Lacan, caracterizado pelo choque inicial entre lalíngua e corpo.  Esta aproximação se caracteriza pelo lugar que o conceito de trauma assume para esses dois autores, ou seja, a porta de entrada para o inconsciente, e não como posterior ao mesmo, tal qual Freud postulava no início de suas formulações. O recalque que viria ou não posteriormente ao trauma determinaria a estrutura psíquica do sujeito. Nessa perspectiva, poderíamos pensar este conceito na psicose. O trauma, portanto, estaria posto desde o início e marcaria a entrada do falasser na linguagem, podendo ser entendido como a condição essencial para sua existência.


[1] Resumo da apresentação realizada no Núcleo de Psicanálise e Psicose do IPB, no dia 08/10/2014