10/11/2014

O amor sem letra

Cena do Banquete, Taça ática, c. 480 AC, Musée du Louvre
Evento-Cartéis

Entrevista
com Yolanda Vilela
por Cristiane Barreto





Cristiane Barreto: As assonâncias, esse tipo de rima imperfeita que faz coincidir as vogais, presente no título em francês do Seminário 24 de Lacan – L’insu que sait de l’une bévue s’aile à mourre –, traz embaraço à tradução, ao mesmo tempo que parece promover um exercício de poesia na busca de ressonâncias das palavras em português.
Jogos significantes múltiplos tocam o amor. Você poderia explorar um pouco mais a sua afirmação de que o Seminário 24 traz uma mudança em relação ao estatuto do amor e do inconsciente?

Yolanda Vilela:
Vereis que, pouco a pouco, as letras vão rolar do
próprio nome:
Amor sem m.
Amor sem o.
Amor sem r.
Amor sem a.
fica o silêncio em que vos dareis, uma à outra, ponto final na chama.

M. G. LLANSOL, Um beijo dado mais tarde

A palavra amor vem do latim amor. Na língua francesa, o vocábulo apresenta uma curiosidade: no plural, amor muda de gênero, ou seja, passa do masculino ao feminino. Assim, dizemos no singular: un amour passager [um amor passageiro] e no plural: des amours passagères (amores “passageiras”]. Qual a razão dessa inversão, que não deixa de ser uma bizarrice da língua? Muitas. Resumidamente: no francês antigo, amor pertencia ao gênero feminino (entre os séculos IX e XVI mais precisamente); no século XVII, por ocasião da reforma da língua francesa efetuada pelos acadêmicos, constatou-se que, em sua origem latina, amor era palavra masculina. Assim, amor, de feminino que era, passou à forma masculina, conforme ao latim. Porém, amor no feminino se manteve na língua, mas restrito ao plural, tal como no exemplo acima.
Mais, ainda: como nada é muito simples no campo da língua, admite-se, também, nas formas literárias e mais sofisticadas, amor no feminino singular: une vraie amour [“uma verdadeira amor”], une amour violente [“uma amor violenta”], etc. Ou seja, há na língua certa instabilidade no que diz respeito à palavra amor, uma vez que existem oscilações de gênero e número em seu campo lexical.
Essa curiosidade da língua remete-nos ao nosso campo, o campo psicanalítico. Para articularmos algo em torno do novo estatuto do amor e do inconsciente, tal como a questão aparece no chamado “último ensino” de Lacan, talvez possamos evocar o Seminário 8: a transferência, onde Lacan resgata O Banquete, de Platão. Vale lembrar que as elaborações lacanianas avançam sempre por circunvoluções, o que equivale a dizer que a escrita de Lacan não é linear e pede, por essa razão, outro tipo de leitura.
Como se sabe, amor é o tema central do diálogo platônico. Sobre ele discorrem Agatão e seus amigos. Ao expor o seu ponto de vista sobre o amor, Sócrates o faz recorrendo a Diotima, mais precisamente ao que ele diz ter ouvido dela. Uma mulher, portanto. Ela era “sábia em matéria de amor e em muitas outras coisas”. Sócrates reproduz, então, o que lhe ensinara Diotima.
Segundo os ensinamentos da mulher, Amor não seria um deus, mas um grande demônio. Os demônios permanecem entre os deuses e os mortais, sendo sua função interpretar o que vem dos homens e levar aos deuses e interpretar o que vem dos deuses e levar aos homens. Entre homens e deuses, Amor preenche o intervalo, ligando as partes do grande todo. Deuses e homens não se misturam, e é pela intermediação dos demônios que os deuses conversam com os homens, seja durante a vigília, seja durante o sono.
Quanto à origem do Amor, Diotima lembra a Sócrates que, sendo filho de Poros (a abundância, a riqueza) e Pênia (a penúria, a pobreza), Amor apresenta características dos dois genitores: é sempre pobre, rígido, seco, descalço e sem domicílio; está sempre perto das portas e nas ruas. É indigente, como sua mãe. Por outro lado, herdou do pai a constante procura pelo que é belo e bom; é valente, decidido, ardente, excelente caçador, astucioso, amador da ciência, cheio de recursos. Amor passa a vida filosofando, é um hábil feiticeiro, mágico e sofista. Por natureza, não é mortal nem imortal; em um mesmo dia, ora é florescente e cheio de vida, ora morre, para em seguida renascer, graças à herança paterna. O que ele adquire lhe escapa sem cessar, de modo que ele nunca está na opulência nem tampouco na indigência, e da mesma forma, fica no meio entre o saber e a ignorância.
A circunvoluta obra lacaniana permite-nos também explorar o último ensino de J. Lacan à luz de seus primeiros ensinamentos, e não somente o contrário. Certamente, Lacan resgata O Banquete para apoiar suas construções relativas à transferência, tema frequentemente retomado e discutido no campo psicanalítico. Porém, para além dessa perspectiva, pequenas passagens do texto platônico nos fornecem elementos para uma leitura sobre o amor e o inconsciente em seu chamado último ensino.
Se Amor é sabedoria e plenitude, Amor é também ignorância e solidão. Se Amor aponta para o Um fusional, ele não deixa de ser afim ao não-todo. Vejamos o que afirma Lacan no Seminário Mais, ainda:
É evidentemente metáfora permitida a Freud pela feliz descoberta das duas unidades do gérmen, o óvulo e o espermatozoide, de que se pode dizer grosseiramente que é de sua fusão que se engendra o quê? – um novo ser. Só que a coisa não acontece sem meiose, sem uma subtração inteiramente manifesta, ao menos para um dos dois, justo antes do momento mesmo em que a conjunção se produz, uma subtração de certos elementos que não é por nada que estão na operação final.
Mas a metáfora biológica seguramente está aqui ainda muito menos do que alhures, o que pode bastar para nos confortar. Se o inconsciente é mesmo o que eu digo, por ser estruturado como uma linguagem, é no nível da língua que temos que interrogar esse Um. Esse Um, a série dos séculos lhe fez ressonância infinita. [...]
É mesmo preciso partir disto, que esse Há Um é para ser tomado com o sotaque de que há Um sozinho. É daí que se apreende o nervo do que temos mesmo que chamar pelo nome com que a coisa retine por todo o curso dos séculos, isto é, o amor (Lacan, Mais, ainda, p. 90-91).
Ao “Um” fusional do amor, o amor que procura a completude, Lacan opõe o amor que não faz fusão e que descompleta. Nesse sentido, ele recorre ao que chama “Um-sozinho”: “pelo Um-sozinho apreende-se o nervo do amor”, diz Lacan. Amor é pobre, só e sem domicílio. Sua natureza solitária e errante é apontada por Platão, que expõe os discursos totalizantes sobre o amor (os da educação, da medicina, do clérigo e da jurisprudência) à ironia do discurso de Aristófanes, um poeta cômico – não à toa inserido ali por Platão.
O “novo amor” ao qual remetem os versos do poeta Rimbaud pode ser apreendido segundo esta perspectiva, ou seja, a do amor que conhece seus próprios limites, sabe com eles jogar e que, sobretudo, preserva a solidão:
Do Um, na medida em que ele ali está, podemos supor, apenas para representar a solidão – o fato de que o Um não se amarra verdadeiramente com nada do que pareça o Outro sexual. Completamente em contrário à cadeia, cujos Uns são todos feitos da mesma maneira, de não serem outra coisa senão Um (Lacan, Mais, ainda, p. 174).
O novo amor converge, assim, com o inconsciente tomado em sua vertente real, vertente que permite que ele possa ser lido sem o lastro de uma transferência excessiva e onde a letra, por sua unicidade e equivocidade, prevalece sobre o sentido. Esse novo estatuto do amor e do inconsciente, consolidado no último ensino de Lacan, se fundamenta nesse Um-sozinho, único capaz de suportar o amor e o silêncio em sua dimensão volátil, plural e intermitente. É o que nos permite ler o que escreve Lacan:
Joguei, no ano passado, com um lapso ortográfico que cometi numa carta endereçada a uma mulher – ‘você jamais saberá o quanto é amado’ [aimé, em vez de aimée]. Disseram-me depois que isso queria talvez dizer que eu era homossexual. Mas, o que eu articulei precisamente o ano passado, é que quando se ama, não se trata de sexo” (J. Lacan, Mais, ainda, 19 dez. 1972).
Cristiane Barreto:  Afinal, o Um-sucesso do inconsciente sela, erra ou dá asas ao novo amor?
Yolanda Vilela: Tudo isso e mais um pouco... O Um-sucesso do inconsciente sela o amor, considera o amor em suas errâncias, dá asas ao amor, etc., etc. O jogo joyceano das letras que formam o título do Seminário 24 promove jogos significantes múltiplos, o que dificulta e até mesmo impede a fixação de um único sentido. Vale observar, no entanto, que o inconsciente é bem sucedido ali onde ele fracassa, isto é, onde o Um-sozinho encontra-se atrelado à contingência, e não aos ideais. Como escreve o poeta: Tua cabeça se vira: o novo amor! / Tua cabeça se volta, o novo amor!

Yolanda Vilela


Referências Bibliográficas:
LACAN, J. Le Séminaire, livre VIII : Le transfert. Paris: Seuil, 1991.
LACAN, J. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LLANSOL, M.G. Um beijo dado mais tarde. Lisboa: Edições Rolim, 1990.
PLATON. Le Banquet / Phèdre. Paris : Flammarion, 1992.
RIMBAUD, A. Œuvres Complètes. Petite Bibliothèque de la Pléiade. Paris : Gallimard, 1972.