10/11/2014

Fazer pela via do amor… da boa maneira

René Magritte, Le viol, 1934
Evento Cartéis[1]
Clara María Holguin
Vice-Presidente na NEL/Membro da AMP

“E o que lhe faz pensar que sou um homem? Poderia ser uma mulher”. Esta resposta dada por A. Di Ciaccia a sua paciente quando disse tê-lo escolhido por ser um homem, interroga o lugar desde onde deve ser pensada a posição do analista.
Se um homem pode ser uma mulher e uma mulher pode ser um homem, nem a biologia, nem o gênero são suficientes para explicá-la. A passagem a analista e, portanto, o fim de uma análise, como diz Marie Hélène Brousse[2], é correlativo à teoria da sexuação em psicanálise. Será necessário orientar-se pela maneira como Lacan localiza a “sexuação” do lado feminino para esclarecer o que é o analista como produto de uma análise.
Dois pequenos exemplos da minha prática de supervisão, como supervisora, mostraram-me o caminho a percorrer. No primeiro caso, a praticante foi escolhida por ser “uma analista masculina”, localizada na transferência como um parceiro homossexual, de igual para igual, evitando assim a possibilidade de introduzir o hetero. No segundo caso, a questão surge a partir de uma série de lapsos da praticante. Fala de uma paciente mulher em termos masculinos. Para ela, sua paciente é ele. Assinalá-lo tem efeitos interpretativos que serão, posteriormente, localizados como uma dificuldade em escutar algo da feminilidade que, como eco, ressoa com a sua própria.
Para ambas praticantes, a questão relativa à feminilidade está diretamente relacionada à dificuldade em assumir uma posição analítica, o que permite acrescentar que tal posição deve ser considerada em função do reconhecimento, não mais da castração, mas do que nele toca a posição feminina – o que devemos entender, segundo as palavras de J.-A. Miller[3], da boa maneira.

Autorizar-se na letra
A sexuação do ser falante, a partir do último ensino de Lacan, pensada do lado feminino, implica um mais além da identificação; integra, na combinatória significante, um real que é estranho ao sujeito e, portanto, exige uma construção suplementar que introduz o Um, não como unicidade do falo para ambos os sexos, pois sabemos que “não-tudo” na sexuação é fálico, mas o Um que Lacan define como “a mesmice da diferença absoluta”. “A mesmice” que – podemos pensar – corresponde ao que Lacan assinala no Seminário 21, “o ser sexuado só autoriza de si mesmo... e de alguns outros”[4].
Detenhamo-nos aqui um momento, não sem assinalar o que para mim – como para vocês – evoca falar de autorização e que na sequência colocaremos em série: o principio de autorização do analista[5].
Como entender esta “mesmice” em que se autoriza o ser sexuado? De acordo com a orientação delineada por J.-A. Miller, esta implica resolver o obstáculo assinalado por Freud[6] em termos do rechaço à feminilidade que, como lembra M. Bassols[7], é uma “des-autorização da feminilidade”.
Superar este obstáculo[8] implica o luto pelo falo que destitui o sujeito de sua fantasia, para dizer “sim” à feminilidade e, deste modo, renunciar a esse rechaço que o afeta. A propósito, diz Miller, a posição analítica é a posição feminina ou, ao menos, lhe é análoga, e acrescenta: “não podemos ser analistas enquanto estivermos instituídos pelo fantasma fálico”[9]. A função da exceção deve ser negada.
É necessário ir além da travessia da fantasia que resolve a questão do desejo para apontar o gozo, causa última da neurose, onde está capturada a pulsão, e colocar em evidência que não há, no plano do significante, um Outro que responda, e que o objeto não é senão um semblante. O que interessa é a satisfação obtida pela pulsão em seu trajeto para situar o acontecimento de corpo. Um gozo que corresponde ao traumatismo, ao choque, à contingência entre o significante e o corpo, que dá conta do que conhecemos como gozo feminino ou o gozo como tal, que não obedece ao regime da castração, que tem afinidade com o infinito e é indizível, pois ex-siste ao significante.
Esta “mesmice” implica o Um que afeta o corpo, que não faz aliança com nada, mas produz gozo. É a partir do Um que o corpo aparece como o Outro do significante, à margem dos efeitos de significado e, em particular, fora do sentido do ser. “O Outro não é simplesmente esse lugar onde a verdade balbucia. Ele merece representar aquilo com o que a mulher fundamentalmente tem relação […] radicalmente o Outro, a mulher é aquilo que tem relação com esse Outro”[10]. Autorizar-se em si mesmo, é autorizar-se nesse Outro gozo... nessa alteridade, no Há-Um que dá conta do silêncio da mulher. Alteridade do não-todo que escrevemos como letra.
Se colocarmos em série a autorização do ser sexuado e a do analista, temos que dizer que são relativas à “mesmice”. Portanto, tratar-se-á para cada um de escrever essa letra, de como cada um captou em sua experiência a não-relação sexual, esse “real que não fala”, que é puro vazio, mas que é possível contornar através da escrita. Seja homem ou mulher, trata-se, para o analista, de poder escrever algo nesse lugar do ilimitado, sabendo que “O não-todo não resulta de que nada o limite, porque nele o limite é situado de outra maneira”[11], como litoral que com Lacan chamamos sinthoma.
A afinidade entre a posição do analista e a posição feminina que se vislumbra a partir da letra, que feminiza, como diz Lacan, faz surgir “a significação de um amor sem limite, porque fora dos limites da lei...”[12]. Ao contrário do amor narcisista que busca ser completado pela via do objeto, o que predomina nele é a sua articulação com a pulsão, que se revela em seu valor de fazer-se amar. Mas não se trata “de um amor novo, no sentido do mesmo amor com distinto objeto”[13], senão de uma nova maneira de amar. Um novo amor.
Este amor, dirá Lacan anos depois, deve entender-se “como significação vazia”[14], um amor que está determinado pela não-relação sexual, sendo isto o que lhe permite aceitar que algo desta possa se inscrever de maneira contingente. Que exista encontro. “É um amor simplesmente feminino”, diz Miller[15].

Fazer pela via do amor… da boa maneira.
Frente à ausência da relação sexual, tal como frente à inexistência d’A mulher, temos como correlato o Há-Um, uma posição de existência que atribuímos a um analista ou a uma mulher, um por um. Nem ser, nem falta-a-ser, mas ex-sistência.
Então, em quê consiste o analista confrontado com o Há-Um? Não consiste no desejo do analista tal como foi proposto por Lacan em 67[16], mas em outra função[17], que implica lidar com o resto pulsional, não redutível ao vazio produzido a partir da topologia do objeto, para inventar um fazer com o resto. Não se trata somente do impossível de escrever a “relação sexual”, do “não há”, mas também “do que há”, um real.
Esta função, que não é um puro vazio e que se enraíza no corpo, toma forma na identificação ao sinthoma, o qual, diz Lacan, é preciso “conhecer”, saber-fazer com ele. Saber, sim, mas não um saber no significante, que não fala, mas um saber com o que se faz, com o que se manipula,
Fazer pela via do amor da boa maneira é convidar a falar; “espera, pede um S2, mas sabendo ao mesmo tempo que não virá”[18]. Trata-se de um amor vazio de significação que mantém um gozo silencioso; faz existir uma ausência e seu gozo correlativo (gozo-ausência), como demonstra a curiosa relação da posição feminina ao fazer-se falar: “não é deixar-se enganar por belas palavras, é poder ter a experiência da ressonância das palavras”[19].
O analista, pela via do amor, possibilita o encontro entre corpos suprindo, por esta via, a relação que não existe, permite a mediação entre os S1 sozinhos, possibilita que irrompa um saber impossível e preserva o lugar do silêncio no dizer. Sua posição ativa aponta ao sem-sentido, ali onde a palavra não alcança, e faz escutar ao inconsciente o que não se quer ouvir, ou seja, faz soar as palavras que são estrangeiras ao sujeito. “Fazer ressoar outra coisa que o sentido, outra coisa que a ressonância é, propriamente, agregar o vazio”[20]. Não é isto, por acaso, o mais propriamente feminino? É o que faz o analista, como parceiro-sintoma, quando põe a serviço do analisante seu sinthoma, sua invenção.
Fazer pela via do amor da boa maneira é minha forma de transmitir e reconhecer o que ao analista lhe cabe da posição feminina.

Tradução: Cristiana Gallo
Revisão: Paola Salinas e Maria Josefina Fuentes

[1]  Trabalho apresentado nas Jornadas na NEL em Lima, em outubro de 2014.
[2]  BROUSSE, M. H. Posición sexual y fin de análisis. Buenos Aires: Tres Haches, 2003, p. 65.
[3]  MILLER, J.-A. (apud GUÉGUEN, P. G. “‘A clareira queimada’, ‘o dedo levantado’, o lugar de ‘mais ninguém’”. In: A ordem simbólica no século XXI. Rio de Janeiro: AMP Subversos, 2013, p. 81).
[4]  LACAN, J. O seminário, livro 21: les-nos dupes-errent. Aula de 5 de abril de 1974. Inédito.
[5]  LACAN, J. “Ato de fundação”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, pp. 235-247.
[6]  FREUD, S. Análise terminável e interminável. In E.S.B. Vol. XXIII.
[7] BASSOLS, M. “Una mujer se autoriza en sí misma”. In: https://www.facebook.com/permalink.php?id=416539261769771&story_fbid=442197252537305. “De ahí también que me haya gustado siempre el modo en que se ha traducido al español – en la edición de Amorrortu – la expresión freudiana ‘Die Ablehnung der Weiblichkeit’ para designar la roca de la castración en el límite del análisis freudiano, terminable e interminable. ‘Desautorización de la feminidad’ fue la expresión que encontró el traductor”.
[8]  Comum a ambos os sexos, mas que toma diferentes formas de expressão segundo se trate de um homem ou de uma mulher.
[9]  MILLER, J.-A. O ser e o Um. Curso de 9 de fevereiro de 2011. Inédito.
[10]  LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008, p. 87.
[11]  LACAN, J. O seminário, livro 19, ...ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2012, p. 198.
[12] LACAN, J. O seminário, livro 11, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1988, p. 260.
[13] SALMAN, S. Conferência “Encontros com o feminino”, proferida em Bogotá, no Seminário “A experiência do real em psicanálise”, em setembro de 2013.
[14]  LACAN, J. O seminário, livro 21: l’lnsu que sait de l’une bévue s’aile à mourre. Inédito.
[15]  MILLER, J.-A. El ultimísimo Lacan. Buenos Aires: Paidós, 2012, p. 158. Tradução livre.
[16]  LACAN, J. “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2003, pp. 248-264.
[17] MILLER, J.-A. O ser e o Um. Aula de 11 de maio de 2011. Inédito.
[18] MILLER, J.-A. El ultimísimo Lacan. Op. cit., pág, 158. Tradução libre.
[19]  LAURENT, E. “Sutilezas de lo femenino”. In Lacaniana n. 14. Revista de la Escuela de Orientación Lacaniana, 2013, pp.118-119.  “Hablar de amor es en sí un goce. No es engañarse por hermosas palabras, por cuentos chinos, es poder tener esa experiencia de la resonancia de la palabra. Cómo hacerse agarrar por el decir? Hacerse hablar, sí, que las palabras tengan resonancia, sí, pero que no sean atrapada bajo la identificación del padre”.
[20] MILLER, J.-A. El ultimísimo Lacan. Op. cit., p. 180. Tradução livre.