13/10/2014

Um instante mais, e...

Ondina Machado

Gosto muito de uma situação relatada por Luiz Eduardo Soares no livro Cabeça de porco[1] onde conta que, num momento em que se vivia uma onda de violência no Rio, uma senhora estava subindo no elevador de um grande prédio comercial quando "um rapaz negro, com aspecto de pobre" entrou. Ela foi tomada de grande aflição, achando que iria ser assaltada. O rapaz desceu poucos andares depois sem que nada acontecesse. Mesmo assim, a senhora relatou sua experiência para as amigas: "Você não imagina o que me aconteceu, quase fui assaltada."
Ao ler a entrevista de Miquel Bassols para o site do nosso XX Encontro Brasileiro[2], lembrei-me desse episódio. Bassols usa uma interessante expressão de Lacan, inspirada em Gustave Guillaume – linguista francês do início do século passado, para falar do estado de ameaça constante em que vivemos. "Um instante mais, e a bomba explodia..." serviu para Lacan nos mostrar a antecipação de um evento que retroage sobre o sujeito sem que, necessariamente, o evento tenha acontecido[3] e que Bassols retraduz como uma "forma de presença de um real pré-traumático".
Um constante estado de alerta dá um certo tom ao momento atual e, muitas vezes, somos levados a agir sobre essa antecipação, seja pela prevenção ou pela passagem ao ato.
Pensemos em dois planos. O da prevenção cria a ilusão que a angústia possa ser evitada. O do ato impele o sujeito a responder a uma pergunta que não foi feita.
Podemos supor que a senhora, como forma de prevenir o assalto, descesse do elevador no andar seguinte ao que o rapaz entrou. Qual seria a diferença? Nenhuma, pois para ela o assalto teria acontecido da mesma forma que não aconteceu. Mas vamos supor que ela empreendesse uma reação agressiva contra aquele que teria lhe assaltado. Qual a diferença? Nenhuma, pois novamente o assalto teria acontecido sem acontecer. Em ambos os casos nada foi evitado, pelo contrário, nos dois houve assalto.
É mais ou menos esse o contexto em que muitos ato violentos são cometidos: como uma resposta antecipada à angústia.
A estrutura básica do ato demonstra que sua temporalidade é a de "um instante a mais, e a bomba explodia". Não há planejamento, o que há é a "certeza assustadora"[4] da angústia que pula o tempo de compreender. É essa certeza que torna o ato necessário, não pode ser de outra maneira, isto é, mesmo que o acontecimento seja contingente, a resposta do sujeito, dada as condições ou a falta delas, não poderia ser outra.
A supressão do tempo de compreender é o espaço roubado ao sintoma que  poderia aí se constituir. Não há tempo para vacilações que interroguem o sujeito sobre a sua bomba, a ruptura com o simbólico se precipita numa espécie de aventura radical de gozo onde o corpo é convocado a liberar sua excitação. A pulsão, como sempre, se satisfaz, nesse caso a custa do sujeito que, em sua relação com o objeto, desaparece.
Alguns filmes publicitários já demonstram a prevalência de passagens ao ato como respostas cotidianas à angustia. Neles as qualidades do produto não tem mais lugar, o que importa é a emoção que pode proporcionar. Não é mais a valentia dos cowboys, induzindo a uma identificação, que seduz o consumidor. O que se promete hoje é a liberação da excitação corporal, é jogar tudo para o alto e viver uma experiência inédita. O consumo não está mais ligado ao ideal de pertencer a uma classe social, ao investimento simbólico numa imagem de riqueza, nem mesmo à demonstração de poder, ele se liga à autossatisfação. É um consumo gozoso, pelo frisson da excitação da compra.
Uma consumidora compulsiva, bastante endividada, se comprometeu a antes de comprar qualquer coisa ligar para a analista, como uma espécie de rehab na transferência. Um homem ciumento, que com frequência rompia as relações de forma agressiva, foi estimulado a colocar uma sessão de análise entre a desconfiança e o rompimento. Estratégias para criar um tempo de compreender que interrompa a escalada da ação sem subjetivação, que introduza uma questão sobre a causa do desejo.
Muitos atos violentos percorrem a mesma trajetória, menos pela falta de tolerância com o gozo do outro e mais pela imperatividade de seu próprio gozo como Outro, o que "isola cada um dos seres falantes na sua parte irredutível de inumanidade"[5]

[1] ATHAYDE, C.; et al. Cabeça de porco. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005, p. 181-182.
[2] BASSOLS, M. Entrevista. Em: http://www.encontrocampofreudiano.org.br/2014/02/um-momento-mais-e-uma-bomba-explode_13.html
[3] LACAN, J. "Observação sobre o relatório de Daniel Lagache. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 685. Também em: LACAN, J. O ato analítico (inédito), aula de 10 de janeiro de 1967.
[4] LACAN, J.  O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro Jorge Zahar, 2005, p. 88.
[5] MILLER, J.-A. "Préface". In: Biagi-Chaï, F. Le cas Landru. Paris: Imago, 2007, p. 13.