13/10/2014

Trauma: intercessão entre o público e o privado?

Arthur Bispo do Rosário: Arte além da loucura
Frederico Morais, 2013, Nau Editora
duscumpadi
Ana Stela Sande

Desde o inicio do ano, estamos no Núcleo de Psicose do Instituto de Psicanálise da Bahia, tentando dar conta do tema proposto para o XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e da sua relação com a psicose.
Bassols em uma entrevista para o site do Encontro diz que esse tema aponta na direção de encontrarmos uma intercessão entre o que é do publico e o que é do privado. Violência nas cidades remete ao que podemos experimentar no âmbito do publico, o que experimentamos junto à nossa comunidade, a comunidade dos que vivem na mesma cidade, que andam pelas mesmas ruas, freqüentam alguns espaços no mesmo momento cronológico. Trauma nos corpos é o que dessa experiência afeta a cada um de nós na nossa singularidade.
Um dos textos de orientação para o nosso XX Encontro O trauma, generalizado e singular, escrito por Eric Laurent, traz a idéia de que "o trauma não pode ser tomado sem a estrutura". Uma experiência é considerada traumatizante à medida que "comporta o encontro com um risco importante para a segurança ou para a saúde do sujeito".
Neste texto, Laurent destaca que Freud dá grande importância ao trauma e o liga à neurose e à repetição e depois do desenvolvimento da pulsão de morte trabalha a idéia do fracasso da repetição neurótica como defesa para a perda primordial do objeto. Diz que o trauma - assim como a experiência de gozo, a angustia e a alucinação - é um fenômeno clínico que está na borda da estrutura de linguagem, que "toca o real e nos arranca de nossa tendência a considerar a vida como um sonho, para continuar a dormir".
Em Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, texto de 1953, Lacan propõe inscrever a linguagem sobre o toro, já que essa figura permite trabalhar com um interior que está também no exterior. A partir dessa figura, Laurent, trabalha o trauma como "um buraco no interior do simbólico". Define o simbólico como "o sistema dos retornos dos recalcados através dos quais o sujeito quer encontrar a presença de um real". Assim, o simbólico é tanto o sintoma quanto o que não chega a fazer sintoma, "o ponto de real que permanece exterior a uma representação simbólica. Podemos pensar o real como uma "exclusão interna ao simbólico" e o sintoma um "enunciado repetitivo sobre o real," como a única forma do sujeito responder ao real: fazendo dele sintoma. "O sintoma é a resposta do sujeito ao traumático do real". O ponto do real impossível do simbólico absorver é a angustia traumática.
O encontro com o real é contingente e sempre traumático, constituindo marcas mnêmicas no ser humano como sujeito falante, o que caracteriza o sujeito do significado como um traumatizado pelo significante. Gui Briole em seu verbete sobre o trauma no livro A ordem simbólica para o sec. XX diz que esse encontro se trata de um encontro com a morte, determinando um ponto de certeza : "chegamos tão perto da morte que chegamos a vê-la". O encontro traumático é violento e brutal, pois rompe o véu que recobria o real. Não se apaga e não é modificado pelo recalcamento. O que é suscetível de apagamento é o evento traumático.
Entretanto, esta idéia de violência do trauma não significa que o evento traumático tenha que ser necessariamente violento. A violência da qual estamos falando diz respeito a esse encontro contingente do significante com o corpo e isto não tem como não ser brutal, não tem como ser leve, tranqüilo. Germán García, no livro Actualidade do trauma fala que o traumático do acontecimento está ligado à surpresa e à estranheza, localizando o trauma como um "elemento extraterritorial dentro do próprio território", algo familiar que retorna no encontro com o estranho do acontecimento exterior. Este acontecimento mesmo não tendo explicação, altera o que estava programado.
Ainda com a idéia do exterior/interior podemos observar que não há fantasma sem trauma que o desperte. Assim, o valor e o sentido dado ao evento traumático viria no segundo tempo que, agindo sobre o primeiro, daria a um evento o efeito traumático. A partir da leitura da teoria freudiana podemos dizer que o encontro de uma fantasia com um acontecimento externo produz o trauma. Para Lacan, a fantasia e o sintoma são formas de elaboração do traumático. Os dois caminham juntos, fazem parte de uma série.
Germán García tira do seminário sobre as identificações um ponto interessante das articulações de Lacan sobre o trauma. "O trauma é sem motivação", não há motivação para o trauma, o que há é repetição. Opõe a idéia de motivação à idéia de repetição, não da repetição significante e sim de algo de irrompe e que quebra com a organização significante. É essa característica que faz com que haja algo de enigmático no trauma, algo que é impossível de saber, algo da ordem do real. Isto faz com que busquemos em uma análise algo deste núcleo traumático que seria o verdadeiro, mas isso não existe.
Não se trata do real do trauma, nem do trauma como real, e sim da identificação do trauma com a estrutura do sujeito. O encontro com algo que não está no cálculo e desestabiliza. A partir daí, uma serie de movimentos busca retomar a ordem. A função do fantasma é a de ordenar o que o trauma desordenou. Aqui me coloco a questão que tem movido meu interesse na investigação acerca da psicose: como se dá isso para os sujeitos psicóticos? O que vem no lugar do fantasma é o delírio?
Para Laurent, o trauma é generalizado, dessa forma operamos com seus efeitos. Assim o trauma para a psicanálise de orientação lacaniana não é um distúrbio, mas um buraco que faz falar.
O ser humano está na categoria de traumatizado pelo simples fato de ser um ser de linguagem.  O corpo afetado pela linguagem é traumatizado. Para fazer a diferença do trauma freudiano, que é subjetivado no só depois, usamos o termo troumatisme ou mais recentemente o les troumains que vem o francês l´être humam, conforme apresenta Miller na última aula do Perspectivas para ler o Seminário 23 de Lacan. Esta idéia é o que vai interessar a Lacan no final do seu ensino.
Aprender a falar deixa marcas e tem conseqüências e essas conseqüências são o que chamamos sinthoma, a marca do humano, falasser, troumains que não se apaga. Mais uma vez retorno à questão da minha investigação: se o psicótico não faz sinthoma, o que está nesse lugar?

Bibliografia:
Bassols, Miguel – Trauma nos corpos, violência nas cidades in http://www.encontrocampofreudiano.org.br/2014/04/trauma-nos-corpos-violencia-nas-cidades.html
Briole, Gui – Trauma, verbete Scilicet, Um Simbólico para o Sec. XXI
García, Germán – Actualidade del Trauma, Ed Grama, 2005
Lacan, Jacques – O Seminario, livro  11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, aula V, Tiquê e Autômaton
Miller, Jacques-Alain – Perspectivas do Seminário 23 de Lacan, O Sinthoma, Ed. Jorge Zahar, 2010