13/10/2014

Trauma e Psicanálise


duscumpadi
Bartyra Ribeiro de Castro[1]

Quando Freud, no final do séc. XIX, descobriu o inconsciente, ele o fez a partir do trauma. Para a psicanálise, o trauma funda a história de cada um de nós, nossa constituição psíquica, nossa realidade. Desde o ‘Projeto para uma psicologia científica’, Freud já ressaltava a importância do trauma, traduzido pelo efeito da perda em relação à primeira experiência de satisfação e o impossível reencontro com esta.
O conceito de trauma sofreu algumas transformações ao longo da obra freudiana. A primeira definição data de 1892: “transforma-se em trauma psíquico toda impressão que o sistema nervoso tem dificuldade em abolir por meio do pensamento associativo, ou da reação motora”[2]. Tudo o que não foi possível de ser integrado pelo psiquismo ou expresso pela descarga motora se tornaria traumático.
Ouvindo as histéricas, Freud observou a existência de um registro da realidade que produzia efeitos fundamentais sobre o psiquismo, gerando angústia e produzindo sintoma. Tratava-se de experiências reais de sedução, ocorridas na infância, cujas impressões deixavam um excedente de energia sexual que não encontrava escoamento no aparelho psíquico, do que este se defendia pela via do recalque.
Freud, que jamais abriu mão da clínica como bússola de seu percurso, pôde comprovar através dos relatos de suas pacientes que, no inconsciente, não havia indicações de realidade senão como decorrência de uma indistinção entre verdade e imaginação. Isto conferiria aos afetos os seus quantums de energia – o que ele denominava catexia (1892). 
Este é o ponto em que podemos entender a fantasia enquanto determinante da realidade psíquica que se serve do Complexo de Édipo para proferir a sua verdade. A realidade psíquica era, portanto, para Freud, nesse momento, edípica e a sedução passava a ter um status de uma ficção que tinha uma dimensão traumática de encontro sexual que se fixaria ao longo da vida psíquica sempre tomando o referencial traumático infantil como determinante. Este efeito de fixação levou Freud a considerar sobre a inexistência do tempo no inconsciente – um inconsciente atemporal. Assim, em Freud, o trauma passou de uma cena real a um plano de realidade fantasmática, cujo operador era o mito edípico.
Segundo a tese freudiana, o excedente sexual não absorvido, deixaria inscrições no psiquismo responsáveis por fixar a pulsão aos seus representantes. Uma compulsão à repetição apontaria para os reinvestimentos guiados por essa fixação, como uma “síndrome de repetição traumática”[3] consequente de um fracasso nas defesas. Assim, Freud se ateve à fantasia como consequente aos efeitos traumáticos de uma “fragilidade sexual”[4] dos humanos.
Em 1920, ao nos apontar para um mais além do princípio do prazer, Freud revelou a força de uma pulsão que, através de uma exigência cega, funcionava como imperativo – a pulsão de morte. A morte é para Freud, um dos nomes da impossibilidade de uma satisfação completa que nos remete à fantasia de um “antes do sexual”. O sexual presentificaria a morte no que ela traz de impossível de ser representado no psiquismo. 
Ao longo de suas descobertas a respeito do inconsciente, Freud não abandonou o real em jogo no trauma, isto é, o desencontro fundamental em relação ao objeto perdido, o que se pôde deduzir desde o sonho de Irma, do umbigo, da TRIMETILAMINA (que delimita as bordas do inominável).
É sobre o efeito deste trauma no discurso universal do qual surgiu a psicanálise, que se fundamenta o ensino de Lacan. Este furo, Lacan nomeou de ‘encontro com o real’, do qual o sujeito somente poderá se aproximar dividindo a si mesmo. Temos, em virtude das descobertas freudianas, três elementos fundamentais para Lacan: o sexual, o impossível e um excedente ligado a um estranho prazer que, mais tarde, será conceituado como gozo.
O real atravessou o ensino de Lacan desde os seus primeiros seminários sob as formas de ‘clínica do significante’, ‘clínica do objeto (a)’, e ‘real sem lei’, assim como o conceito de trauma e a constituição psíquica no seu entrelaçamento entre real, simbólico e imaginário.
Jacques-Alain Miller faz um recorte da obra de Lacan e nos fala que é possível distinguir dois ensinos. O primeiro compreende diferentes momentos de duas formulações sobre o inconsciente no qual um Lacan eminentemente “freudiano” faz uso de novas ferramentas e outros saberes, dentre estes – a filosofia, a linguística, a matemática e a lógica, para extrair o que há de mais estrutural na psicanálise. No primeiro momento, que poderia ser referido apenas ao Seminário 1 – Os Escritos Técnicos de Freud, a ênfase recaía sobre o imaginário e, por isto, Lacan fez uso do Estádio do Espelho para falar da busca, pelo sujeito, de um certo lugar provocado pela ilusão da unidade. O contorno do real - caos originário, feito pelo simbólico e pelo imaginário (unidade experimentada) dependeria do lugar em que o sujeito se situasse a partir da ordenação conferida pelo significante Nome-do-Pai. Logo após, Lacan estabelece o inconsciente enquanto estruturado como uma linguagem, mítico e regrado, onde tudo tenderia à metáfora. O sujeito seria um efeito de representação numa cadeia significante, a partir do Outro como tesouro destes. Foi o tempo da primazia do simbólico em ascendência sobre o real, e enlaçando e ordenando os três registros.  
O Seminário 7 – A Ética da Psicanálise – traz em seu bojo uma mudança importante na lógica interna do ensino de Lacan uma vez que este passa a se apresentar a partir do conceito de gozo. Aqui, associado a uma transgressão.
Após o Seminário 11 – Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise, Lacan conferiu ao gozo um mecanismo pela via do par alienação e separação; e acresceu ao inconsciente uma dimensão pulsional de abre e fecha.
O segundo ensino de Lacan, que, segundo Miller, se inicia na última aula de Lacan no Seminário 20, quando nos apresenta ‘alíngua’, implicou numa passagem da busca da restituição de um significante perdido no processo de alienação ao discurso, de uma verdade a ser decifrada e de um sujeito que se constitui determinado pelo Outro (1º ensino); a uma inversão de paradigma, à equivalência entre os registros, ao axioma da não relação sexual e à tese de um real sem lei. No segundo ensino, Lacan trouxe inicialmente uma dimensão para além da articulação S1–S2, um significante puro  e, mais à frente, as fórmulas da sexuação e o significante do Outro barrado –S(A barrado).
Se no primeiro ensino Lacan postulava um "para todos", no último, aponta para uma singularidade na relação do ser falante com aquilo do qual lançará mão para que possa se haver diante do real.  As ficções tecidas pela linguagem são a elucubração de saber sobre o real do trauma.
O efeito do trauma produz um sintoma e transmitir sobre o real do Acontecimento Freud se tornou o seu próprio, conforme relata Lacan, em seu Seminário 23. Jacques-Alan Miller em ‘O ultimíssimo Lacan’ nos lembra que o trauma implica numa quebra de sequência, na irrupção contingente de um impossível e de um inassimilável. Caminhamos, aqui, para o axioma do Um que preexiste ao Outro na constituição do falasser: “Il y a de l’Un”. Um troumatisme fundamental.
Neste momento, Lacan falou do UM do significante, coincidindo com o fora do sentido, mais além do desejo do Outro que até então constituía o sujeito. No que diz respeito ao trauma, ao fantasma e à verdade, Lacan nos aponta para um acontecimento contingente e traumático pela incidência de um significante que localiza o gozo no corpo. Este acontecimento de corpo traumatiza os seres falantes e produz um excesso que poderá, ou não, ter como consequência a inserção no discurso e no laço social.
O trauma não é um acontecimento qualquer nem um acidente per se. Por trauma se entende um encontro, um “acontecimento inesperado com um real gerador da angústia”[5]. “Os mais traumatizados não são, forçosamente, as vítimas passivas, mas aquelas que, na ocasião, experimentaram um gozo obscuro”[6], como nos fala Serge Cottet em recente entrevista publicada em La Cause du Désir.
Não há um ‘para todos’ no trauma, nem em seus efeitos, como forja a cultura dos DSMs e das avaliações baseadas no cognitivismo e no comportamentalismo, e a serviço da lógica do consumo. Eric Laurent, em ‘O Trauma, generalizado e singular’, nos lembra que o DSM V “tenta reduzir os efeitos do trauma a um fundamento biológico, universal e transcultural” – uma visão de mundo previsível, onde as contingências poderiam ser evitadas e/ou programadas num computador. No entanto, como o real irrompe sem lei, seus efeitos são hiperbolizados e catastróficos nesta cultura. A mídia e a televisão se incumbem, tanto de forjar um mundo de alegrias irreais quanto do gozo com a tragédia, transmitindo uma ideia de aldeia global.
Esta visada exclui o que, no tocante aos efeitos traumáticos, não pode deixar de comparecer: a estrutura de quem o sofre. Neste mesmo artigo, Laurent enfatiza que, mesmo os traumas de massa, que atingem milhares de pessoas, são vividos em grupo, têm seus efeitos no grupo e na cultura, mas são sofridos e referenciados a partir do singular. Do um a um.
O trauma diz da singularidade de uma marca no corpo que se estende por toda uma vida. Uma, de um! Não de todos. Os efeitos do trauma se ligam essencialmente à singularidade do que tange ao quê e ao como cada um faz com o impossível, com o real do desamparo humano; como se satisfaz com isto que só pertence a si próprio e, mais ainda, como lida com o que lhe escapa a todas estas tentativas. É no que lhe escapa que se encontra a sua questão central – o que foi perdido deverá ser sempre “reencontrado” enquanto tal, sob o fundo de um trauma primordial[7].

Vitória, 29 de agosto de 2014


[1] Membro da EBP/AMP. Abertura do Seminário Internacional - INFÂNCIA E TRAUMA – com Gustavo Stigitz, EBP-Delegação ES, 29 de agosto de 2014.
[2] S. Freud – 1940-41 (1892), p.222.
[3]Eric Laurent – O Trauma, generalizado e singular.
[4]Phillipe La Sagna – Les malentendus du trauma – La Cause du Désir, 86, p.41.
[5]Entrevista com Serge Cottet – Freud et l’actualité du trauma – La Cause du Désir, 86, p. 28.
[6]Idem, p. 30.
[7] S. Freud – “A Denegação”.