30/10/2014

Trauma e corpo – automutilação, consistência e amarração

Museu Nacional de Berlim,
Coleção de Antiguidades Clássicas, c. 460 A.C.
SEMINÁRIO
21 de novembro de 2014
14h  às 20h
Salão Chrysoberyl

Cristina Drummond

Se o estádio do espelho se consistiu numa aparelhagem privilegiada no ensino de Lacan para localizar o pulsional no corpo levando em conta o simbólico e o imaginário, na época do real sem lei ele não dá conta das diversas soluções que os sujeitos encontram para fazer laço entre corpo e palavra.
Vemos hoje tratamentos dos corpos que antigamente estavam incluídos apenas no campo das psicoses, tais como tatuagens, cortes, automutilações, implantes, reduções, práticas alimentares, de higiene ou sexuais, etc. O seminário 23 traz elementos importantes para pensarmos as respostas do sujeito para construir sua maneira singular de aparelhar o pulsional, o gozo em seu corpo e, apesar do exemplo de Joyce ser uma solução singular, ele nos ensina que o que amarra o corpo é um sinthoma.
Esse caminho que trata do corpo que não se consiste pela imagem, mas que se organiza como resposta a um furo real foi tratado de diversas maneiras por Lacan em seu ensino através de interrogações sobre esse ponto traumático que é estrutural. Em alguns exemplos, vemos como o sujeito toma o corpo do outro como modo de se sustentar: seria essa solução da ordem do imaginário? Em outros, o encontro do sujeito com o sexual é abordado como desorganizador de uma consistência imaginária. Há também aqueles em que o sujeito, diante de certas contingências, separa-se de seu corpo. Para retornar ao núcleo do traumático, Lacan faz várias referências ao jogo do Fort-Da enfatizando ora a vertente do tratamento significante, ora a vertente do pelo objeto, a fim de formular um dispositivo inventado pela criança para aparatar a “outra satisfação” que Freud vislumbrou na brincadeira de seu neto.
Interessa-nos de modo particular a formulação do Seminário 11 onde Lacan diz que a questão enfatizada por Freud - de a criança fazer-se agente de uma ação que sofrera passivamente, de eliminar o efeito do desaparecimento de sua mãe - seria um fenômeno secundário. O que seria primário é a resposta que a criança produz com seu jogo, resposta ao que a ausência da mãe lhe desencadeia. Wallon já havia observado que nesta situação o menino não vigia a porta por onde a mãe saiu, mas o ponto em que ela o abandonou. Para Lacan:
“... o que falha não é o outro enquanto figura em que o sujeito se projeta, mas aquele carretel ligado a ele próprio por um fio que ele segura — onde se exprime o que, dele, se destaca nessa prova, a automutilação a partir da qual a ordem da significância vai se pôr em perspectiva. Pois o jogo do carretel é a resposta do sujeito àquilo que a ausência da mãe veio criar na fronteira de seu domínio — a borda de seu berço — isto é, um fosso, em torno do qual ele nada mais tem a fazer senão o jogo do salto” (LACAN, 1963-1964/1973, p.63).
Essa "automutilação do sujeito" é a resposta ao furo no real que é estrutural e traumático para todo falasser. Ela é retomada por Miller na designação do  pequeno a no real e sua irrupção é marcada pela separação, pela perda no corpo. A criança está radicalmente separada não da mãe ou do Outro, mas de uma parte dela mesma, esta parte de natureza que a linguagem retira. Aqui, a repetição aparece determinada pelo trauma como real. O inassimilável é algo que não passa à representação, ou seja, não cessa de não se inscrever. Isto importa no contexto da clínica. Não é simplesmente que não se inscreva, mas que, sendo o que não cessa de não se inscrever é causa de novas transcrições. 
Nossa intenção é, a partir da clínica, investigar essas novas transcrições do trauma em distintas maneiras que os sujeitos encontram para fazer consistir seus corpos. A experiência dos sujeitos autistas mostra-nos que eles passam pela automutilação real ou podem conseguir localizar em objetos privilegiados algo do pulsional. Os fenômenos de in-off, distintos do Fort-Da, nos ensinam sobre sua maneira particular de lidar com a linguagem. Neles o traumático do que não cessa de não se inscrever insiste de modo a nos fazer ver a operação que concerne a todos os sujeitos: uma busca de aparelhar seu corpo à palavra. 
Essa noção de “automutilação do sujeito” será tomada como um elemento para a investigação sobre a perspectiva do corpo como sintoma, articulada à formulação no Seminário 23 do corpo como um conjunto de sacos e cordas. Vamos tomar alguns exemplos clínicos para buscarmos as invenções do corpo do falasser como um sintoma, defesa ao trauma do furo no real.


Referências:
Revista Aleph - Revista da Delegação Paraná da Escola Brasileira de Psicanálise, n. 4, A violência e a agitação dos corpos, maio de 2014, sobretudo o texto de Marcus André, “Da voz à ressonância” e o de Dominique Wintrembert, “A automutilação, uma inscrição real”.
LACAN, J,  O Seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, RJ: Zahar, sobretudo o capítulo 5, p. 63 e ss.
MANDIL, R, “Conjunto vazio”, em: Opção Lacaniana n. 66, São Paulo, agosto de 2013.
MILLER, J-A, Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. O Sinthoma. RJ: Zahar, 2010, sobretudo a lição 5 (p. 81 e ss), lição 7 (p. 111 e ss) e a lição 8.


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