22/10/2014

O que desaparece, o que resiste

"Pallaksch. Pallaksch.", Leila Danziger
Fátima Pinheiro

A arte hoje em dia não responde ao apelo da forma.  Isto implica que nos encontramos diante de um experimentalismo que propicia códigos inéditos, acompanhados de uma diversidade de propostas, técnicas e matérias[1].
Nessa medida cada artista através de sua obra funda o seu próprio sistema de transmissão de linguagem e enunciação de sua poética. As questões que envolvem o trabalho do artista, e que com as quais ele exercita o seu savoir-y-faire são fundamentais para a sua estratégia poética. Alguns artistas incluem em sua estratégia poética uma prática discursiva indissociável de sua produção plástica. Uma artista que torna viva a ênfase na reflexão teórica de seu trabalho e que a exerce em diferentes registros, como a poesia, o fragmento e o ensaio, é Leila Danziger, artista carioca, de ascendência judaico-alemã, que convidada por nós, apresentará a exposição “o que desaparece, o que resiste” no XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano no período de 21 de novembro a 15 de dezembro de 2014, na Funarte - BH.
"Pallaksch. Pallaksch.", Leila Danziger
Memória, trauma, esquecimento, e escrita são questões que permeiam o trabalho de Leila Danziger e estão intimamente entrelaçadas com a temática do XX Encontro Brasileiro de Psicanálise intitulada Trauma nos corpos, violência nas cidades. A exposição dos trabalhos da artista, produto singular de um saber fazer com o sinthoma, é um oferecimento à cidade de Belo Horizonte e a todos os presentes ao XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, que irão cada um, à sua maneira, tocados pelo real da obra, entender que a arte dá testemunho do espírito de nossa época.
"Pallaksch. Pallaksch.", Leila Danziger
Entre os vários trabalhos que Leila Danziger apresentará, em sua exposição, destacamos a vídeo- instalação intitulada Pallaksch Pallaksch,  que está intimamente relacionada à poesia. O impacto provocado pela força das imagens articuladas à poesia de Paul Celan, verificado nesse trabalho testemunha o rumor da língua, que de acordo com a concepção lacaniana de lalangue[2] embora não sirva para comunicar, designa a ocupação de cada um de nós no campo da linguagem, campo por excelência do trauma.  Através da lalação (lallen und lallen) de Pallaksch Pallaksch[3] “uma fala balbuciante, aquém das palavras e do sentido”[4], contida no poema de Celan escrito para Hölderlin, poeta alemão que viveu recluso durante 40 anos, a artista, como ela mesma diz,[5] procura transformar a instalação em uma efetiva escritura de ruídos e resíduos. Os resíduos sonoros criados pela instalação são produzidos a partir do processo de apagamento e reedição dos jornais impressos. Ao dar tratamento àquilo que é da ordem dos resíduos a poética do trabalho de Leila Danziger tangência o litoral da letra: a imagem apagada dos jornais dá lugar à palavra que em sua incessante repetição beira o verso. E o que resta é o som rascante das letras que tocam o impossível de dizer. O que desaparece, o que resiste... é  o  nome para o que não tem nome, o impossível de dizer, mas que a artista, no entanto,   transmite  com a  sua arte.  É através das imagens do vídeo - instalação  Pallaksch Pallaksch, que os convido  a participarem , em novembro próximo, de um embate surpreendente da arte com a língua e  a poesia. Até lá!

Fátima Pinheiro – curadora da exposição o que desaparece, o que resiste – de Leila Danziger: Funarte – BH/ XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. É psicanalista, artista plástica e ensaísta do Blog da Editora Subversos. É Coordenadora da Atividade Arte/Psicanálise da Diretoria de Cartéis e Intercâmbio da Escola Brasileira de Psicanálise- RJ e Participante do Núcleo de Pesquisa de Topologia do ICP- RJ da Escola Brasileira de Psicanálise- RJ. Possui Mestrado em Teoria Psicanalítica pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2008) - Bolsa de Pesquisa Capes, e Graduação em Psicologia pela Universidade Santa Úrsula. Atualmente é doutoranda em Psicanálise pelo PGPSA/ UERJ- Bolsa de pesquisa FAPERJ. Atua nas áreas de teoria e clínica psicanalíticas, com ênfase em Saúde Mental e fundamentos e crítica das artes. Possui formação em Artes Visuais pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

Endereço para acessar o CV: http://lattes.cnpq.br/2212033404421758

[1]Escritos de Artistas-Anos 60/70.  Glória Ferreira e Cecilia Cotrim. Rio de Janeiro: Zahar Ed, 2006, p.18.
[2]< O saber do psicanalista - Jacques Lacan. Seminário inédito.
[3]Palavra que pode significar sim ou não.
[4]< Entrevista de Leila Danziger à Subversos – Fátima Pinheiro/ In Situ: O artista por ele mesmo em 27/11/2012.
[5]< Diários Públicos- Leila Danziger: Rio de Janeiro: Contracapa, 2013.