13/10/2014

Entrevista com Sérgio de Campos

Sérgio de Campos, lançamento do seu livro 'Passema'
Editora Scriptum
Evento Cartéis:  por Inês Seabra

Inês Seabra: Nossas investigações sobre as mutações do amor ao final de análise nos levam a perguntar sobre as parcerias amorosas, sobre os destinos do amor no homem e na mulher.
Amar seria mais difícil para os homens?
A resposta de Miller[1] para Hanna Waar foi: “– Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, ataques de agressividade contra seu objeto de amor, porque esse amor o coloca numa posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a ‘degradação da vida amorosa’ no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.”
Freud diz de uma tendência à depreciação na vida amorosa.  Como você pode elaborar e dar um tratamento a esta tendência em sua experiência de final da análise?

Sérgio de Campos: A depreciação do objeto amoroso em menor grau até a misoginia está presente nos homens em geral como uma tendência universal no âmbito do amor, como afirmou Freud. Com efeito, se o homem tem essa inclinação é por que ele, inspirado pelos restos edípicos como a matriz do amor, tem a disposição inerente de superestimar seu objeto amoroso. O homem, quando não consegue depreciar o objeto amoroso, ele o teme como agente da castração. Portanto, a consequência natural é ele eleger objetos disjuntos, nos quais, em um, ele espera encontrar o amor e, em outro, o desejo, de tal sorte que, ou o sujeito está dentro da lei e fora do desejo, ou o sujeito está fora da lei e dentro do desejo.
O que a conclusão de minha análise facultou de maneira contingente foi a alternância desses dois estados de ânimo no mesmo objeto, o qual denominei de amoresejo. Contudo, nunca ao mesmo tempo, ora um, ora outro, como se houvesse duas mulheres numa só, onde uma se oculta para outra se revelar, uma sucedendo a outra, regidas apenas pelos eventos da contingência.

Inês Seabra: Embora a oferta de objetos criados também no campo da cultura prolifere na contemporaneidade, sabemos que há uma grande inércia nos modos de gozar, vetorizados principalmente pela fantasia que articula o sujeito em seu sintoma. Pelo fato de a relação sexual não existir, como preconiza Lacan, não existirá um sujeito sem sintoma. Pode-se dizer de uma nova articulação entre o amor e a fantasia ao final da sua análise (ou de uma análise)?

Sérgio de Campos: Não há condições, no que concerne a relação sexual, que seja necessária ou suficiente entre homens e mulheres. Portanto, como não há uma fórmula que estabeleça uma conjunção entre o Um e o Outro, A fantasia sob a forma do fetiche e toda sua pantomima veio, às vezes, constituir um véu no qual estava situado um modo de gozo, mediante à perversão polimorfa do macho.
Contudo, ao fim de uma análise, com o esvaziamento do sentido, com a conclusão de que “A mulher não existe”, com o bem-dizer e com o remodelamento do gozo, pude observar um silêncio, uma ausência de semblante, uma lacuna na voz áfona do supereu que possibilita encontrar o objeto voz, particularmente, do parceiro sintoma que, como drive, possibilita a liberação da pulsão para novos arranjos, permitindo satisfações inéditas entre o amor, a fantasia e o corpo.

Inês Seabra: Segundo Miller, Freud inventou um novo amor, inventando um novo tipo de Outro ao qual dirigir o amor, com outras respostas para as questões do sujeito. Mesmo convocado a responder as questões do analisante, um saber terá de ser produzido pelo sujeito e o analista poderá fazer consistir o próprio enigma que este saber traz consigo. Segundo Miller, embora o inconsciente seja também um saber suposto, é preciso o amor para fazê-lo existir como saber. Para Hélène Bonnaud, o amor como a condição da transferência é algo que não se liquida ao final da análise e que se escreve várias vezes na história de analisante de cada um. O que você poderia nos dizer da sua experiência do amor ao final da análise, vivida também na transferência?

Sérgio de Campos: No percurso de minha análise, percebi que amar é contrair uma dívida infinita e continuar amando é desejar permanecer nessa dívida para com o parceiro-sintoma, pois “amar é dar o que não se tem”, é oferecer a falta. Amar uma mulher pode ser trabalhoso para um homem e pode deixá-lo esgotado, inclusive com vontade de fugir, de buscar outras mais fáceis de amar, de ir tomar cerveja com os amigos ou de ir ao campo de futebol, tudo em virtude das incidências da inexistência da relação sexual. Talvez seja a razão pela qual as letras das músicas e as poesias cantarem mais o desencontro no amor do que a felicidade da união.
Para amar uma mulher é preciso estar disposto e ser capaz de manter o amor ocupado e em constante ação, pois o masculino ama o parceiro-sintoma e o feminino ama o amor. Para amar uma mulher é preciso ter coragem, visto que quando alguém ama uma mulher, ama justamente o real que nela habita. Pode-se amar uma mulher de duas maneiras: a primeira, amando o real como impossível, o que acarreta toda sorte de infortúnios, desesperos e sofreguidão; e a segunda, amando o real como contingente, o que ocasiona diversas fontes de alegrias, entusiasmos e surpresas. Para amar o real é necessário abrir mão do sentido e da compreensão. “Amar sem compreender” foi a pérola de aforisma que extraí de meu percurso de análise. Enfim, creio que para mim o novo amor não foi encontrar um novo objeto de amor, mas uma nova maneira de amar.
No que concerne ao amor, a mulher se entrega ao homem não-toda. Ela entrega o seu amor de maneira ilimitada ao Outro muito mais além de seu parceiro. Esse gozo feminino endereçado ao Outro – e não ao seu homem – é um gozo suplementar ao gozo fálico que, por sua vez, a mulher também o detém. Para o homem, elogiar o amor é uma arte que se constitui como uma obra de arte. A arte não está em dizer o amor, mas em fazer o amor, pois fazer o amor significa dizê-lo. Assim, o elogio do amor dispensa o talento do poeta e se abre de maneira contingente a possibilidade para qualquer homem comum (como um) que deseje uma mulher. No fim da análise, o não-todo como contraste se tornou para mim um atrativo e seu mistério serve de estímulo para que eu queira penetrá-lo, de maneira que a estranheza e a diversidade que deveriam distanciar-me e me fazer fugir, hoje crava no objeto a o aguilhão do desejo.
Por último, afinal, qual é o destino do amor ao final de análise, na medida em que não há liquidação da transferência? Pode-se dizer que o destino do amor se conduz por duas avenidas: na primeira, o amor de transferência, sanado sua dimensão imaginária e simbólica, é transmutado na esfera do real em desejo do analista; na segunda via, é endereçado à Escola sob a forma de transferência de trabalho.
Sob o prisma da primeira via, o amor de transferência transformado em desejo do analista advém do postulado de que “no final de uma análise há um analista”. Portanto, o desejo do analista se torna a pedra angular da cura analítica de tal sorte que designa mais ânimo e não acumula experiência; escuta e não pensa; tem disposição e nenhuma razão; suspende a duração do tempo; presta-se à surpresa, ao imprevisto e é destinado à perda. Com efeito, é mais um operador do real do que propriamente um conceito no registro simbólico.
Já sob o ângulo da segunda via, na qual o amor de transferência é dirigido à Escola, assinala-se que a Escola surge no ensino de Lacan como um quinto conceito fundamental da psicanálise, ao lado da pulsão, repetição, transferência e inconsciente. É bastante conhecida a enunciação de Lacan que o trabalho de transferência endereçado ao analista, na conclusão da cura, modifica-se em transferência de trabalho oferecido à Escola. Portanto, amar é expressar-se em confiança, é entregar-se em confiança à Escola de Lacan. O prefixo op, que origina a palavra “operário”, “operação”, “oportuno”, entre outras, designa elevação, construir para o alto, edificar, o que implica um trabalho de transmissão do ensino da psicanálise a partir de suas fundações. Contudo, a altura corresponde inversamente à profundidade desse trabalho. Lacan, no “Ato de Fundação”, assinalou que não necessitava de uma lista numerosa, senão de trabalhadores decididos. Assim, o analista é um operário da Escola que, com seu trabalho, um a um, favorece uma contingência que possibilita um kairós não para o Outro que sabe, mas para um saber a ser inventado.

[1] Miller, Jacques-Alain. “Uma conversa sobre o amor”. In Opção lacaniana online nova série. Ano 1. Número 2. Julho 2010. ISSN 2177-2673.