30/10/2014

Editorial


21 & 22 + TRAUMA e VIOLÊNCIA (POR VIOLETA HANONO)
nota estendida sobre os Seminários/Conferências de AMEs e a ironia,
 seguida de uma breve notícia sobre as Mesas Simultâneas e um vídeo



Sérgio Laia -  Coord. da Comissão Científica do XX EBCF


Em outro Editorial, pude anunciar que nove Analistas Membros da Escola (AMEs) vão apresentar, no próximo dia 21 de novembro, Seminários e Conferências para os inscritos no XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, bem como pude listar os títulos dessas atividades, o nome desses colegas, a novidade que elas comportam e como fazer para delas participar. Agora, neste número do esseOesse, vocês poderão ler as ementas e algumas referências bibliográficas desses Seminários e Conferências para que definam suas escolhas.
“AME” é a sigla pela qual Lacan designou uma das formas do “gradus” existente na Escola. A outra forma foi designada com a sigla AE (Analista da Escola). Com a noção de “gradus”, Lacan apresentou duas nomeações – AME e AE – que não se valem da hierarquia para serem conferidas. Em latim, “gradus” quer dizer “grau”, “categoria”, mas, antes disso, também “passo”, “modo de andar”, “lugar a que se chegou”, “atitude”. Retomando essas acepções latinas, parece-me possível afirmar que AME e AE designam dois diferentes “graus”, dois diversos “modos de andar” ou “passos”, dois “lugares” ou duas “atitudes” a que se pode chegar em uma Escola de Psicanálise efetivamente orientada pelo ensino de Lacan. O título de AME, segundo Lacan, é conferido “pelo fato de a Escola... reconhecer” um “psicanalista que comprovou sua capacidade” (Outros escritos, p. 248). Em outros termos, no caso do AME, há um reconhecimento – sem limite de uma duração temporal e sem qualquer solicitação da parte do futuro ou do provável reconhecido – de um caminho trilhado, de uma atitude, de um lugar a que se chegou como psicanalista e que não implicaria exatamente uma surpresa: constata-se uma “capacidade” que, com Lacan, poderemos qualificar como já comprovada através de fatos que marcam o próprio caminho. Por sua vez, o título de AE – em torno do qual teremos duas plenárias no XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano e no qual não me deterei neste Editorial – surge também com relação a um trajeto, a uma atitude, a um lugar a que se chegou, mas que, resultante de um percurso menos comprovável factualmente ou menos assimilável a uma “capacidade”, são nomeáveis a partir de uma solicitação de quem o terá realizado e se dispõe a colocá-lo à prova.
Se AME e AE são modos de gradus que, por sua vez, é o que Lacan apresenta-nos como uma espécie de contraponto (no sentido musical desse termo) à hierarquia, eles tampouco deveriam ser hierarquizáveis, embora sem dúvida o AE – inclusive pela surpresa que ele provoca, o arriscar-se que ele implica e sua duração limitada a três anos –  tenda sempre a ressoar como, digamos assim, mais agalmático, mais precioso. Provavelmente, o próprio Lacan deu certo margem a essa tendência ao afirmar que AME é uma “sigla irônica” (Outros escritos, Zahar, p. 311). Muitas vezes pude escutar um tom de depreciação (ainda que sutil) com relação a essa sigla devido ao adjetivo com o qual Lacan a associou. Sua qualificação, por Lacan, como irônica tem a ver com o que, em francês, sem ser lida como uma sigla A.M.E., mas como uma palavra, ela dá lugar à homofonia com “âme”, ou seja, “alma”. Nesse viés, Lacan me parece querer ressaltar que é irônico dizer que uma Escola de Psicanálise tenha alguns analistas que lhe seriam a “alma”.  Especialmente com seu último ensino –marcado pelo “corpo” e pelo “sinthoma” – Lacan ironiza bastante o que se designa como “alma”, mas os limites deste Editorial me impedem de detalhar isso. Agora, para finalizar esta nota estendida sobre os Seminários dos AMEs no XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, interessa-me mais ressaltar o quanto a qualificação da sigla AME como “irônica” pode nos fazer enveredar por algo bem surpreendente. Afinal, Miller diferencia a “ironia” do “humor” dizendo que ela “não é do Outro”, mas “do sujeito, e vai contra o Outro” sustentando que “o Outro não existe, que o laco social é uma escroqueria, que não há discurso que não seja de semblante”, e que a ironia se apresenta “aí onde a queda do sujeito suposto saber foi consumada” (Matemas, Zahar, p. 191).
É muito mais comum, mesmo entre nós, nas Escolas da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), relacionarmos o título de AE com a queda do sujeito suposto saber. Ainda assim, a definição de Miller sobre a “ironia” – quando eu a conjugo com a qualificação da sigla de AME por Lacan como “irônica” – convida-nos, a meu ver, a tomar o título de AME como outro grau dessa mesma queda, e diverso daquele do grau de AE porque enquanto o primeiro se refere a um sujeito que faz uso da ironia para abordar a “consumação do sujeito suposto saber”, o segundo se refere a um objeto, ou seja, ao que se apresenta como um produto no final de uma análise. Será oportuno, portanto, escutarmos, no dia 21 de novembro, Seminários e Conferências de AMEs brasileiros sobre o trauma e/ou a violência: sabemos o quanto esses temas convocam o Outro, o laço social e os discursos e será instigante os escutarmos abordados por colegas que, como AMEs pela EBP e pela AMP, já puderam comprovar a afirmação da inexistência do Outro, o engodo que o laço social é e a natureza de semblante própria ao discurso. Que eles possam, então, nos transmitir, cada qual em seu estilo, a ironia que carregam não em suas “almas”, mas que os animam (e faço aqui um trocadilho não menos irônico, especialmente para aqueles que conhecem a etimologia latina desse último termo).
Anuncio-lhes, ainda neste Editorial, que, em um próximo Boletim, as Mesas Simultâneas do XX Encontro Brasileiro, programadas para o dia 22 de novembro, serão divulgadas. Desde já, posso lhes dizer que serão 42 mesas, com apresentação de 3 trabalhos em cada uma, perfazendo 126 textos, selecionados entre os 165 que recebemos. Agradecendo aos AMEs que nos destinaram suas propostas de Seminários e Conferências, aos colegas que nos enviaram seus textos para as Mesas Simultâneas, destaco – pautado nesses endereçamentos e também em cada inscrito nesse evento da EBP – que não há Outro, o laço social é um engodo, o laço social é um semblante, mas a transferência de trabalho que a orientação lacaniana mobiliza nos corpos mostra-nos como uma Escola, promovendo um Encontro, dá mostras de sua ex-sistência.
Por fim, mais abaixo, ao final dos títulos dos Seminários e das Conferências dos AMEs programados para o próximo dia 21, destaco-lhes um vídeo, realizado por Isabel do Rêgo Barros Duarte em colaboração com Flávia Corpas, referente a uma apresentação de Julieta Hanono, artista argentina radicada em Paris,  na Seção Rio de Janeiro de nossa Escola (EBP-RJ). Vocês verão o modo como sua obra tem lhe permitido encontrar um enquadre, não sem sua própria experiência analítica, para um acontecimento traumático que, imposto pela ação truculenta da ditadura argentina, tem, como Freud já sustentava, uma determinação anterior. O acesso a Julieta Hanono nos foi dado por Marcela Antelo e a realização dessa atividade na EBP-RJ, bem como do vídeo e de uma entrevista mais longa que em breve encontraremos um lugar para publicar, foram possíveis graças à disponibilidade e ao interesse com que Isabel do Rêgo Barros Duarte recebeu o convite de Marcela Antelo e meu para contactar essa artista e mobilizar outros colegas: a cada um envolvido nessa atividade, bem como à própria artista, muito obrigado.
Que este número de esseOesse, tanto quanto o próprio acercamento da data, nos aproxime ainda mais do Encontro que em breve teremos, em Belo Horizonte.