13/10/2014

Do encontro traumático original

Nancy Greca Carneiro [1] [2]

A violência como um objeto elevado à dignidade da coisa.
Violência e trauma: Que importância para a clínica hoje?
Da salvação pelos dejetos e da salvação pelo ideal.

Será destas articulações entre o generalizado e o singular que tratará o XX Encontro da EBP: Trauma nos corpos, violência nas cidades. [3]
E em que nos importa estas articulações?  O que faz da violência uma questão central? Sergio Laia em seu argumento para o XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano afirma: .... Assim, com Lacan, nos distanciamos da relação linear e planificada do tipo causa-efeito para afirmar uma topologia na qual a apresentação da violência na cena pública poderá ser abordada levando em conta o que se passa de modo não menos exterior (porque também estranho invasivo e dilacerante) na intimidade do que traumatiza os corpos (e a qual temos acesso pela experiência clínica com o um por um). [4]
Pode-se então admitir, se não uma relação de causa e efeito entre o universal, o particular e o singular, que a topologia lacaniana apresenta a particularidade de designar um interior que está também no exterior, passível de apontar para um buraco no interior do simbólico. A clínica nos oferece nos fenômenos elementares (delírio, alucinações e fenômenos de corpo), fenômenos que se apresentam como “vindos de fora”, mas que estão ao mesmo tempo na borda e no centro do sistema da linguagem. Estes fenômenos implicam uma topologia em que não se opõe o interior ao exterior. No Seminário 11 Lacan lembra que o real se apresenta na origem da psicanálise como o inassimilável na forma do traumatismo, numa repetição que se apresenta sempre de forma acidental como um encontro faltoso. [5] O trauma é este buraco, onde um ponto de real permanece exterior a uma representação simbólica, seja sintoma ou fantasia inconsciente: exclusão interna ao simbólico.
Miguel Bassols, em seu texto Trauma nos corpos, violência nas cidades [6], apresenta a violência como um objeto, não mais velada pela indiferença gélida da “Banalidade do mal” de Hanna Arendt, mas a supõe como “elevada à dignidade da coisa”, em que a fascinação pela violência “chega ao mais íntimo e ignorado do fantasma do sujeito”. Será a própria violência um objeto elevado ao zênite social? Observe-se a infindável série de produções de feriados americanos em que o personagem central é movido pelo ódio e seus atos de crueldade a cada vez mais impensáveis. Trata-se da violência como um produto da cultura.
A questão que me formulo é a de que, se a própria violência se apresenta hoje como um objeto que vela o mais intimo de cada sujeito, irredutível a identificação. “Poderíamos chegar a falar, inclusive, de uma sublimação da violência, de sua elevação como objeto à dignidade da Coisa? A fascinação que produz mostra e encobre, por sua vez, com sua tela a relação mais íntima de cada sujeito com a pulsão de morte. Nada existe de “instinto natural” na violência humana, como poderia se supor no reino animal. Não existe, de fato, instinto violento na inumanidade do humano. Trata-se de um dos produtos inerentes à cultura, em cada uma de suas formações simbólicas, e isso, desde que para Freud nossa civilização se funda no ato simbólico do assassinato do pai pela horda primitiva”. [7]
A violência põe assim a evidência de um sujeito foracluído, que será sujeito apenas no ato que alcança a morte do outro. Já em Freud se faz aparecer a civilização como efeito de um ato, o de matar ao pai, que institui no laço social entre os irmãos o acesso possível a um gozo, um gozo fálico cujo uso estará submetido a uma lei. Freud articula a salvação pelos ideais por meio da sublimação: o que resplandece e se eleva, uma forma de glória, de totalidade. Para tratar dessas questões, Lacan (2008) aborda o conceito de sublimação já teorizado por Freud desde os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade até Moisés e o monoteísmo como um ato de criação e a define como elevação de um objeto à dignidade da Coisa. Ao situar o campo da Coisa como o lugar onde se produz a sublimação, Lacan evidencia o quanto o processo de sublimação se estrutura a partir de um Vazio que se forma simultaneamente ao advento do significante, que introduz no Real um furo que se chama a Coisa. 
A psicanálise faz ver que a salvação, sempre buscada pela via dos ideais poderá ser buscada pela via dos dejetos: restos, partes, peças soltas. [8] Implica encontrar novos modos de viver a pulsão e o que dos sintomas resta como avesso ao recalque, alheio ao símbolo, refratário à interpretação, opaco à decifração analítica, apresentando-se como “pedaços de real” inassimiláveis ao que faz sentido, mas que tocam o corpo e dão-lhe um sentido (tomado, aqui, como orientação). [9]
Poderá a experiência analítica extrair, por um lado, uma orientação clínica que tenha em conta este nó do real em torno do qual gira toda a elaboração significante e a construção das identificações e, por outro lado, elevada a violência à dignidade da coisa, permitir a produção de respostas possíveis à violência no social?

Referências:
BASSOLS, Miguel.  Trauma nos corpos, violência nas cidades. http://www.encontrocampofreudiano.org.br/2014/04/trauma-nos-corpos-violencia-nas-cidades.html
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatros conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
LAIA, Sérgio. Argumento. XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.
LAURENT, Eric. O trauma: generalizado e singular.
MILLER, J. A salvação pelos dejetos. In Correio – Revista da Escola Brasileira de Psicanálise. Numero 67. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise. Dezembro de 2010


[1] Aula dada no dia 28 de maio de 2014.
[2] Psicanalista Praticante, Membro da EBP - AMP, Mestre em Antropologia Social, Professora do Curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR. Rua Imaculada Conceição, 1155. Prado Velho. CEP 80215.901 Curitiba-Pr. Tele fax: (41) 3271-1591. Membro do Grupo de Pesquisa Aspectos Psíquicos e Psicossociais do ser Humano em Desenvolvimento, na linha de pesquisa em Teoria Psicanalítica. E mail: nancy.carneiro@pucpr.br
[3] LAURENT, Eric. O trauma: generalizado e singular.
[4]LAIA, Sérgio. Argumento. XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.
[5]LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatros conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
[8] MILLER, J. A salvação pelos dejetos. In Correio – Revista da Escola Brasileira de Psicanálise. Numero 67. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise. Dezembro de 2010
[9] BASSOLS, Miguel.  Trauma nos corpos, violência nas cidades.