13/10/2014

Aqui entre nós é tudo gente boa!


Nesse instante, reparei que já não tinha as algemas;
porém, não pude lembrar nem quando,
nem como as tinham tirado. (Victor Hugo)

Enquanto isso... num serviço de saúde mental, uma voz ecoa: “ aqui dentro, dona, nós é tudo gente boa, lá fora, nós é tudo marginal”.
Faz lembrar mesmo o homem moderno, sujeito desbussolado, sem guia.  Ele leva o dia-a-dia contando apenas com as contingências. Sem nada a preparar. Parece ignorar que a vida pode ter um norte. Que a existência pode ser construída. Que contingência deve ser apenas uma contingência.    
Se é para roubar, ele rouba. Mas, se a ordem é para matar, ele também mata.  Talvez nunca tenha se detido, sequer, para vislumbrar outras possibilidades.  Então é possível ser “gente boa” num lugar específico, e, na vida, ser marginal. Única nomeação encontrada.
Num mundo do mais-de-gozar é preciso ter ou ser  alguma coisa que se destaque.   Ser o pior, “o bicho solto, que nada tem a perder” - pura pulsão de morte -   mas que, segundo Lacan no Seminário 7, é também laço com a vida.
Alguns falam da dor de matar um semelhante, mas também do hábito logo adquirido. A dor cede lugar a frieza. É preciso não pensar no que está fazendo.  Pura repetição. Parece haver nisso um desligamento do Outro para dar conta daquilo que, num primeiro momento, horroriza.
O analista, ao ofertar sua escuta, introduzindo uma aposta no amor de transferência, pode vir a ser um principiar de novo rumo para o sujeito, na busca de nova conexão com a vida. Brincando com as palavras de Victor Hugo, então, quem sabe a psicanálise protagonize um certo papel de tirar algemas, para que o sujeito, liberto, construa um norte. Pode ser uma aposta!
        

Bibliografia:
HUGO, Victor.  O Último Dia de Um Condenado.  São Paulo: Golden Books,  2005.
LACAN, Jacques.  O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.