30/10/2014

A violência e o feminino

Johann Ulrich Krauss, "Tiresias" in The metamorphoses
of Ovid,  c. 1690
CONFERÊNCIAS DE AMEs
Dia 21 de novembro de 2014
16h15min às 18h15min
Dayrell Theatre

Heloísa Caldas

Fala-se muito em violência contra a mulher. Vamos preferir, nesta conferência, relacionar a violência, de forma mais lacaniana, ao feminino cuja conceituação, com Lacan, descola-se do corpo anatômico e da categoria de gênero.
O feminino habita, a rigor, todos os corpos, sendo no entanto subjetivado de forma singular por cada um – esse será o primeiro aspecto a discutir, separando o que a psicanálise pode dizer sobre o feminino em contraste com outras abordagens que se dedicam às “questões femininas”. Visaremos a destacar, então, o quanto a diferença sexual permite o advento do sujeito e demarca uma alteridade. Esse viés permitirá enlaçar a violência ao trauma, no corpo:  apenas o corpo pode experimentar o gozo e apenas o sujeito pode se valer da linguagem para lidar com isso. Se o resultado da coalescência entre gozo e linguagem resulta, para muitos, que o sujeito se coloque como tendo um corpo, também se poderá verificar que o sujeito não tem, entretanto, total familiaridade com o que acontece no “seu” corpo. Essa estranheza, devido ao espelhamento narcisista,  costuma ser atribuída a outra pessoa, mas, pelo que ela se apresenta como íntima ao sujeito, não deixa de ameaçá-lo. Nesse âmbito, a violência foi abordada pela psicanálise como agressividade.
Em um plano mais articulado ao simbólico-imaginário em contraponto ao real, passamos do espelhamento imaginário para a lógica da pulsão que anima a fantasia, produzida pelo sujeito, como resposta ao real traumático. A fantasia define e limita o gozo fálico, mas não impede que reste um gozo Outro opaco e ameaçador. Lacan adjetivou de feminino esse gozo Outro. Nessa perspectiva, o lugar do objeto a na fantasia é fundamental para seu funcionamento e também seu fracasso. Será que a violência irromperia no ponto em que a fantasia falha em manter o gozo fálico a salvo da ameaça do gozo feminino? O sujeito ataca destrutivamente o objeto à medida que este não atende completamente ao gozo fálico? Aqueles que, seja por parceria sintomática, seja por contingência, ocupam a posição feminina de objeto são mais vulneráveis à violência? Como pensar a posição subjetiva dos que se oferecem nesse lugar?
Por fim, serão realizadas algumas considerações sobre a repetição traumática das violências chamadas de “domésticas” e sobre como o singular do sujeito pode empurrá-lo, contingencialmente, às violências de massa.


Referências
LAURENT, É. (2014) O trauma, generalizado e singular. Site do XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: Trauma nos corpos, violência nas cidades. Disponível em: http://www.encontrocampofreudiano.org.br/2014/02/o-trauma-generalizado-e-singular_9241.html
LAURENT, É. (2013) Racismo. Em: Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 67. São Paulo: Eólia.
MACHADO, O; DEREZENSKY, E. (orgs.) (2013) A violência: sintoma social da época. Belo Horizonte: Scriptum e Escola Brasileira de Psicanálise.
MILLER, J.-A. (1985-1986/2010) Extimidad. Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós.
ONS, S. (2009) Violencia/s. Buenos Aires: Paidós.
VIERA, M. A.; RÊGO BARROS, R. (orgs.) ( 2012) Ódio, segregação e gozo. Rio de Janeiro: Subversos.


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