29/08/2014

Violência nos estádios e a ex-timidade

Manifestação da torcida em estádio
Ressonâncias

Carlos Ferraz Batista*

Motivado pelo XX Congresso Brasileiro do Campo Freudiano, aproveito a oportunidade para discorrer, brevemente, sobre um tema que me é caro: violência.
Neste momento, privilegiarei a violência nos estádios e as reverberações no espectador. O presente recorte é derivado de uma lembrança que marcou o corpo. Ao assistir a uma reportagem sobre a violência nos estádios, decorrente de um jogo entre São Paulo e Palmeiras, questões foram suscitadas pelo encontro com o real, derivadas por imagens marcadas pelo horror, em que torcedores estavam em situação de batalha, de modo a ceifar a vida do outro, em corolário, jovens distribuindo chutes e pauladas na cabeça de outros. A violência foi revelada e a morte anunciada. Como dar sentido a algo injustificável e inexplicável?
Freud, em “Psicologia das massas, análise do eu”, comenta que o sujeito, estando num grupo - no presente caso, em bando - abdica de sua consciência, sendo que essa é dissolvida entre a massa. Contexto em que a responsabilidade é suprimida e o sujeito regride ao estado mais primitivo de seu ser.
Nesse mesmo texto, Freud permite entender que há uma necessidade do sujeito em eleger um ideal, um líder ou um grupo, para que relações edípicas possam ser vivenciadas. Situação que revela a representatividade do super eu e formação do eu. A questão que se coloca é se a lei se situa somente no externo e não é internalizada.
Lacan, em seus “Escritos”, comenta no “Estádio de espelho como formador da função do eu” que a agressividade é constitutiva do sujeito. Em vista disto, penso que o horror às imagens de cunho assassino é uma oportunidade para pensarmos sobre o laço social, de modo a favorecer a implicação. Há uma tendência em pensar que a violência está somente no outro. A manutenção e deslocamento da pulsão é uma defesa que preserva o eu, porém remete ao mais íntimo do sujeito. Nesse caso, o estranhamento ao outro se materializa, na forma de preconceitos e desagregações. Situação em que há a endemonização do outro, promovendo a intolerância e rupturas no laço social. Ao lançar um olhar difuso sobre os dizeres - atos de violência – corremos o risco de naturalizá-los. Ao não integrarmos as pulsões agressivas, favorecemos o aumento da mesma e incorremos em medidas desesperadas e improdutivas, usando de atitudes repressivas, tentando suprimir a violência por atos de violência, aumentando sansões, prisões, enfim, medidas paliativas. Cabe ao sujeito questionar se a violência é prerrogativa do outro ou se o mal estar, o estranho, é capaz de tocar o sujeito e o fazer perceber o potencial de violência, inerente a todos.
Esta elaboração tem por finalidade abrir espaço para o reconhecimento dos modos de gozo e, portanto, subjetivação e responsabilização, por meio do assentimento subjetivo.
 Vale ressaltar que vivemos em um mundo norteado pela horizontalidade, em que o sistema patriarcal não mais se sustenta. Num mundo pós moderno, cabe lançarmos mão da inventividade, para que possamos constituir um novo laço social, de modo a favorecer outros dizeres. Em suma, a violência que tem origem no social pode ser percebida como um trauma no corpo, sendo que, o sujeito a significa de maneira singular.

* Psicólogo, Psicanalista, Mestre em Lingüística Aplicada
Membro do Cartel - O Ato Psicanalítico da EBP-SP