08/08/2014

Violência contra as mulheres ou contra o feminino?

Gian Lorenzo Bernini - Estasi di santa Teresa d'Avila
duscumpadi
Elisa Alvarenga

O mundo globalizado nos coloca em contato com a violência contra as mulheres nos locais mais distantes e diferentes do mundo, confirmando seu caráter universal e transversal, em lugares e épocas distintos, conforme propõe Miquel Bassols, convidado do nosso Encontro Brasileiro.
Enquanto, por um lado, testemunhamos o caráter brutal e corriqueiro dos estupros que ocorrem na Índia, pesquisas de opinião no Brasil consideram o modo de se vestir das mulheres como um fator causal dos ataques sexuais  dos quais elas seriam vítimas.
Na América do Sul, a violência contra as mulheres é um problema enfrentado por vários países, com índices preocupantes de feminicídios – especialmente na Bolívia – que são objeto de reflexão de vários colegas. Para nós psicanalistas, não se trata apenas de proteger as mulheres de seus carrascos, mas de protegê-las de seu próprio modo de gozo.
Em uma conversa com professores universitários de um programa de pós-graduação em Psicologia social e violências políticas, na Guatemala, tivemos a surpresa de escutar, de uma professora mais antiga, uma pergunta: “que pode a psicanálise ajudar-nos a fazer por estas mulheres que, depois de denunciar seus parceiros e metê-los na prisão, vão recolhê-los para continuar a viver com eles?” Os impasses do gozo feminino estão presentes em todo o mundo e o discurso do mestre não sabe como domesticá-lo: nem com o Nome-do-Pai, nem com as cifras.
O gozo feminino não é apenas um assunto de mulheres, diz o título das próximas Jornadas da Nueva Escuela Lacaniana. De fato Lacan, no Seminário 20, nos mostra que uma mulher pode inscrever-se do lado masculino das fórmulas da sexuação, assim como um homem pode inscrever-se do lado feminino, não-todo.
Um caso ocorrido em Minas nos ajuda a pensar a relação da violência com o gozo feminino: um homem mata sua mulher, aparentemente por ciúmes, e em seguida vai para um motel, onde se automutila até a morte. Ele parece matar em si mesmo esse gozo, em excesso, que não pôde matar no Outro e que invade e sacrifica seu próprio corpo. Esta violência que ataca no Outro o gozo pode estar também na origem da violência contra os homossexuais, quando ataca neles este gozo não reconhecido como próprio por aquele que ataca.
São situações que a psicanálise, ao dar a palavra à vítima de violência ou àquele que passa ao ato, pode ajudar a elucidar e a conter, permitindo um outro tratamento para aquilo que não tem nome... e nunca terá.