29/08/2014

Trauma nos corpos, violência nas cidades

"Les Sans-papiers" em Paris 2011
duscumpadi

Cassandra Dias Farias

Para contribuir com o debate em torno do tema do XX EBCF, sirvo-me de duas referências que foram trabalhadas nas atividades da Delegação Paraíba: O trauma, generalizado e singular (Éric Laurent) e Por que a guerra? (Sigmund Freud).
Trauma e violência são dois eixos que se articulam e que levam a caminhos múltiplos. O trauma, pedra angular da psicanálise, elevado à categoria de conceito fundamental por Freud serve de norte para pensarmos as manifestações da violência que interpelam a civilização e o psicanalista dos nossos tempos.
O ensinamento freudiano de que o trauma se realiza em dois tempos e que o traumatismo só acontece a posteriori, nos ajuda a refletir sobre os nossos microtraumatismos sociais, corriqueiros e cotidianos e sua vinculação com a violência. Os suicídios quase diários nos trilhos dos metrôs das grandes metrópoles, a violência doméstica contra mulheres e crianças, os crimes do narcotráfico, o extermínio de jovens em sua maioria negros, são apenas exemplos corriqueiros do quanto a convivência com a violência hoje é um fato do presente em escalada vertiginosa, convocando muitas reações.
Podemos perguntar a partir da concepção dos dois tempos do trauma, se nas situações de traumatismo haveria trauma?
Vemo-nos diante de um paradoxo, pois entendendo o trauma como sendo da ordem de um trabalho psíquico, o ato violento por si só, não garantiria esse traumatismo.
A banalização da violência levaria antes a um estado de horror e perplexidade do que propriamente ao trauma, sendo necessária a produção de uma báscula que poderia ser expressa em “do horror ao trauma”.
Traumatizar o horror do ato traumático seria a chance de acordar o sujeito do seu sonho de querer sempre dormir, segundo Laurent.[1] O traumático torna-se onipresente em nossos tempos, condenando os viventes a uma angústia pré-traumática, traduzida muitas vezes, nas manifestações tão presentes em nossos consultórios, como a síndrome do pânico e os transtornos de ansiedade.
Na interlocução com Einstein sobre a guerra e as saídas encontradas pela civilização para esse impasse, Freud discute lei e violência nos levando a pensar sobre a própria natureza da lei, na medida em que esta “é a força de uma comunidade. Ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que se lhe oponha; funciona pelos mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos”. [2] Nesse sentido, ele nos ensina que a violência faz parte da ação do homem mesmo em um âmbito que pretende legislar sobre ela própria. Há algo de inumano na tentativa de regulação da pulsão de morte através da lei, pois o estabelecimento desta se dá necessariamente, sobre uma base de violência em relação à pulsão, que é de morte, por excelência.
A própria guerra é, por conseguinte, uma das saídas possíveis para a pulsão de morte, ao lado do amor e da identificação.
Na civilização contemporânea, essa última vertente – a da identificação – encontra-se pulverizada pela multiplicidade de identidades e suas ofertas possíveis. Na busca por ao menos um com o qual o sujeito possa identificar-se, este se depara com o campo vasto das identidades e suas formações comunitárias, que - se por sua vez conseguem apaziguar o que é do pulsional - por outro lado, têm como efeito quase que certeiro, a produção de segregação. A tendência dos nossos tempos é o formato das comunidades em rede a partir de um traço identificatório, na tentativa de delimitar o que está dentro, mas, sobretudo, demarcando o que fica de fora. Perspectiva essa já apontada por Lacan com a escalada do racismo. A principal consequência dessa dinâmica talvez esteja na íntima articulação entre segregação e violência.
Nesse tripé montado entre lei, segregação e violência, o traumático se inscreve nos corpos estupefatos e à deriva frente ao real desprovido de sentido e de lei.
Cabe ao analista reconduzir a experiência traumática e direcioná-la às leis da linguagem, apostando que ela se articule via formações do inconsciente – no melhor dos casos - produzindo daí um sintoma.

[2] FREUD, S. – Por que a guerra? (1933{1932}) – Volume XXII – Imago Editora - p 247