29/08/2014

Sobre a violência

Banksy, Monalisa with Bazooka Rocket
duscumpadi

Oscar Reymundo

Em “A agressividade em psicanálise”, Lacan define a agressividade como estrutural e, ainda, como uma tendência ligada a um modo de identificação narcísico. Esta tendência agressiva poderá ser tratada e conduzida de modo que não impeça a inclusão do sujeito no laço social, na convivência com outros, ainda que o mal-estar e o impasse próprio do desencontro entre seres falantes sempre faça parte da mesma. Embora o limite entre agressividade e violência nem sempre fique claramente definido, podemos pensar que a violência irrompe quando o mal-estar se torna insuportável para o sujeito, isto é, impossível de ser suportado simbolicamente.
Alguns anos atrás, em uma pequena cidade do interior da Argentina, um dia de aula como tantos outros, um adolescente, considerado tímido e solitário por professores e alunos da escola onde estudava, entrou na sala de aula e disparou contra seus companheiros matando três e ferindo cinco deles. Depois ele sentou na porta da escola e ai ficou até a polícia chegar. Quando ele foi interrogado não conseguiu dizer nada sobre o acontecido, nenhum sentido, nenhuma explicação podia ser atribuída ao seu ato. Silêncio. Depois a perplexidade perante a notícia sobre a morte dos colegas. Muitas foram as interpretações que circularam durante esses dias tentando achar algum sentido ao que tinha acontecido; diversas  causas da ‘violência na escola’, uma versão da ‘violência urbana’, foram localizadas na família, na mesma escola, na injustiça social, na pobreza, no governo, na televisão... e muitas vezes a idéia da falta de políticas adequadas dirigidas a erradicar a violência ocupou um lugar central nos debates. Nesses dias, uma pergunta de uma jornalista teve especial ressonância nos diversos meios de comunicação que levantou ondas de indignação nos setores da política nacional que outrora fizeram e continuam fazendo da segurança o objeto principal de suas promessas de campanha: “É mesmo possível erradicar a violência na sociedade humana?”. As exortações a por fim à violência se fundam em conceitos do que seja o humano e a própria violência que são, para dizê-lo em poucas palavras, pré-freudianos. A existência e insistência da violência em suas diversas manifestações na historia da cultura põe em evidencia os limites do universo simbólico para conter as tendências homicidas, isto é, a insuficiência das normas para controlar e encaminhar as pulsões para outro destino que não a destruição de si mesmo e do próximo. Sabemos que para Freud o semelhante não é tão somente um auxiliar e um objeto sexual, mas uma tentação para satisfazer nele as tendências agressivas, explorar sua força de trabalho, privá-lo dos seus bens, torná-lo objeto de gozo sem o seu consentimento, martirizá-lo e, até mesmo, assassiná-lo, e nem a educação, nem as ações punitivas podem erradicar estas inclinações dos homens.
O século XX já deu provas do que hoje vemos avançar de modo decidido: o discurso científico, aliado ao mercado, pretende se tornar garantia de uma felicidade ao alcance de todos mesmo ao preço de erradicar, senão a violência, a subjetividade e, paradoxalmente, vemos abundar os exemplos nos quais nem a ciência e nem mesmo a tecnologia podem garantir nem a prometida felicidade, nem a segurança, nem evitar o encontro do ser falante com o desamparo. Este paradoxo deixa transparecer a impotência dessa aliança porque, quando a aposta forte é tornar possível o gozo sem limites, o que surge, com seu efeito de horror, é o impossível de calcular, o acéfalo imprevisível que escancara a precariedade do sujeito e, portanto, da comunidade. Em outras palavras, quando a aposta forte é no ‘nada é impossível’, o que emerge é a violência própria da satisfação da pulsão.