08/08/2014

Ressonâncias I

Bom Despacho - MG
Andar Pela Rua ...
Eduardo Lucas Andrade

Hoje eu acordei numa vontade danada de prosear, de sentar em algum lugar tranquilo e falar quase que livremente. Nem que seja apenas por alguns instantes, trocar faíscas de sonhos e jogar educados “bons dias!”. Trocar dois dedos de prosa, como diz lá na roça. Né pessoar?! Pessoar? Cadê as pessoas? Hum ... Devem estar por aí, zanzando pelas cidades aos trancos e barrancos, com os traumas circundando seus corpos aos custos benefícios da violência. Espero que o pessoal esteja circulando, caminhando e cantando.
Cirandando a meia volta com o real do trauma que perpassa o social, nas desordens presentes nos desdobramentos de cada esquina. Nem tudo é horror, mas é isto que vendem. Nossa! Enquanto falo, vejo e fantasio. Imagina só! Eis que remonto corpos acelerados, outros encolhidos, paranóicos, são um salvem-se quem puder; e aí de quem os acuda! Trombadas! Super lotação, caos na ‘trans-ação’! Desrespeitos na falta de olhar, escassezes de cumprimentos e palavras. Ali onde falta humanidade, sobra pressa. A bolsa ou a vida?! É um jogo de fantasia presente aos que transitam. Imaginem isso acontecendo justamente lá nas ruas onde cresciam as crianças brincando na poeira. Parece que o pega-pega, esconde-esconde, polícia e ladrão ganharam assustadores ares... Lá onde crianças brincavam de montão, hoje atravessa, no sinal vermelho, manchetes de terror. Lamentável! A todo instante crianças são espancadas no futuro de uma ilusão. Quem as ouve? O que houve? Houve espancamentos dos mestres contemporâneos, sob o véu do controle, inserção de etiquetas e ou pela liberdade desmedida. Os excessos as espancam – excessivo controle, liberdade sem referência. A televisão sonha pelas crianças, um sonho de consumo, um espancamento psíquico de lesão grave. Fiquemos em alertas! Estão tentando roubar o onírico e a infância. Vendem modelos, pais ausentes compram. As crianças são hoje, em meia as turbulências da vida cotidiana, dejetos dos macetes capitalistas. Algo escapa e as crianças inventam modos de se salvarem, sem regra de ouro, ainda bem! Vejo também mulheres, andando, de salto alto, com passos sublimes. De fato ainda não sabem o que querem. Afinal, o que quer a mulher? O social via ‘homem lobo do homem’, responde com grosso modo, capitalizados primitivamente, com estupros, encoxadas e cantadas que desconsideram o mínimo múltipo comum do respeito. O despreparo ao sexual persiste e foi às ruas no século XXI. Invadem corpos e vidas, uivando, traumatizam aquelas que passam. Todo caminhar nesta lógica se faz perigoso. Para piorar a situação, ainda jogam as responsabilidades nas roupas. No final de meu devaneio, vejo que minha fantasia toca o chão da realidade e que andar pela rua, mais do que nunca, é sutileza e fineza em saúde mental. Caminhe, ainda que errante. Se for para parar, venha prosear! Qualquer dia destes vamos sentar e prosear sobre “O trauma nos corpos e a violência nas cidades”, quem sabe dia 21 a 23 de Novembro em Belo Horizonte durante o XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano?