08/08/2014

O amor pela palavra

Eduardo Coutinho - Foto: hollywoodreporter.com
Evento-Cartéis
Lúcia Grossi
Nosso tema proposto por Maria Josefina para o Evento-Cartéis da Escola Brasileira de Psicanálise, que acontecerá no XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, é Os destinos do amor, e um dos desdobramentos deste tema maior que me tocou particularmente foi sua proposta de “pensar as condições do amor de transferência nos tempos do Outro que não existe, ou seja, diante da falência do Outro do saber, que forma toma a transferência?”
 Esta falência do Sujeito Suposto Saber que constatamos nos chamados novos sintomas, no entanto, não elimina a existência do falasser, ou seja, o fato de que seguimos sendo seres de linguagem e disso padecemos. Se continuamos a trabalhar com a palavra, o que isso significa? Minha hipótese é que sustentamos um amor pela palavra.
Penso encontrar alguma coisa desse amor pela palavra na obra de Eduardo Coutinho. Considerado o maior documentarista brasileiro, Coutinho foi morto dia 2 de fevereiro de 2014, aos 80 anos, pelo filho esquizofrênico, que também esfaqueou a mãe e a si mesmo. A notícia me chocou particularmente porque desde 2002, quando assisti ao filme Edifício Master, fiquei siderada pela forma como Coutinho conseguia extrair de seus entrevistados verdades fundamentais, o que me fazia pensar imediatamente no encontro entre analista e analisante. Procurei saber o que Coutinho dizia de sua própria experiência. Chamou minha atenção a maneira como ele definia seu trabalho: “Eu faço um cinema da palavra”. Percebi então como ele sabia o que fazia e que a relação dele com a palavra tinha afinidade com o nosso trabalho de analistas.
“Eu não me interesso em filmar objetos, a casa da pessoa, em detalhar a condição social. O que me interessa é o rosto que fala”, dirá Coutinho a Fernando Frochtengarten. Coutinho não trabalha como um sociólogo, essa depuração do contexto social é mais clara em Jogo de cena e Canções, onde o cineasta convocou por anúncio as pessoas para ouvi-las narrar e cantar. Segundo Frochtengarten, o cineasta fala de dentro da relação com o personagem: esta seria uma experiência radical de alteridade.
Sobre a questão de como ele conseguia tamanha abertura dos sujeitos que entrevista, ele responde: “Se há uma coisa que eu acho que aprendi, por razões obscuras, é conversar com os outros. Com a câmera, porque sem a câmera eu não falo com ninguém”. E continua: “A primeira coisa essencial é estar vazio diante dos outros. Se colocar vazio para receber do outro, sem julgamento, sem esperar nada dele”.

Então, não há nenhuma mágica, as pessoas querem falar. Mas como escutá-las sem um amor pela palavra?