08/08/2014

A clínica na atualidade d'O amor de si

Editora Civilização Brasileira/RJ
Evento-Cartéis

Conversando com Carlos Augusto Nicéas,
por Fernanda Otoni Brisset

O colega Carlos Augusto Nicéas (AME/EBP/AMP) acaba de publicar o livro Introdução ao narcisismo: o amor de si, pela Editora Civilização Brasileira/RJ. Uma leitura preciosa do texto freudiano: Sobre o narcisismo (1914). Ao virar a capa do livro, fui capturada pela ousadia do autor, que desmembrou o título de sua obra para isolar, na página em branco que a inaugura, “O amor de si”, simplesmente só. Esse detalhe inusitado, fora do padrão, dirigiu minha leitura.
A obra refresca nossa memória quanto à luta empreendida por Freud para manter a teoria da libido como um dos pilares de sua descoberta. O texto sobre o narcisismo foi parido a fórceps, sob a pressão daquele momento crucial na história política da psicanálise. Contudo, foi um avanço, um passo fundamental no edifício da teoria das pulsões, incidindo na formalização da clínica analítica a seguir. A leitura do colega Nicéas nos permite localizar que foi naquele texto de 1914 que Freud lançou as bases clínicas para um “segundo momento da elaboração das pulsões, de pensar os circuitos de uma só libido, de uma libido indo e vindo de um para o outro, do objeto para o eu, do eu para o objeto.” (NICÉAS, p. 34). Freud descobre ali “um amor de si” enraizado no eu do sujeito, cuja substância antecede a sua constituição. Esse amor enraizado é o narcisismo de estrutura, força material fundante do estádio do espelho e que participa das soluções subjetivas mais diversas. Interessou-me, sobretudo durante a leitura, anotar que a direção tomada por esse “amor de si” tem consequências clínicas indiscutíveis. Os dias de hoje que as digam! Com satisfação, encontrei na leitura dessa obra um retorno a Freud com o frescor de sua atualidade. Passaram-se 100 anos!!! Entretanto, ao avesso da sintomatologia das histéricas freudianas, a clínica contemporânea depara-se com a exuberância de sintomas desconectados do sentido, cuja insistência do gozo trilha circuitos que dispensam a passagem pelo mundo do Outro. Curtos circuitos! A configuração pulsional dos novos sintomas instala novos desafios a experiência analítica. A libido, não raro, afasta-se do mundo externo, exilando o sujeito fora do circuito transferencial. Pacientes encapsulados pelo amor de si (en-si-mesmados), cuja exigência imediata de satisfação os faz persegui-la em curto circuitos, fora da flechada sinuosa do amor ao inconsciente. Podemos extrair a atualidade de Freud (1914) em sua observação sobre a antítese entre a libido do eu e a libido objetal: “Quanto mais uma é empregada, mais a outra se esvazia”. Isso é notável hoje! Testemunhamos a solidão do Um em aglomerados desligados da pálida e desgastada silhueta do Outro. Sua evidência apresenta-se nas passagens ao ato, agitações, depressões e adições mais diversas, dentre outras formas de viver a pulsão nos corpos e nas cidades. Nossa época farta-se de soluções que parecem desconhecer a barreira sinalizada por Freud (1924) em conhecida frase: “o amor por si mesmo só conhece uma barreira: o amor pelos outros, amor pelos objetos”. Sem a instalação dessa barreira, isolamos o que não muda – o amor de si –, um pedaço de real. Será sob o entusiasmo dessa inspiração destacada pelo colega Carlos Augusto Nicéas, desde a primeira página desse livro, que me lanço nessa conversa/entrevista com este autor admirável, desde sempre.

Conversando com Carlos Augusto Nicéas

Fernanda: Caro Nicéas, seu livro atualiza a discussão sobre o momento atual à luz da noção freudiana de narcisismo. Poderíamos pensar nos sintomas contemporâneos como soluções engendradas nesse amor enraizado no eu, o narcisismo original conforme está dado em Freud? Se sim, como um analista, hoje, pode perturbar o curto e compulsivo circuito desse “amor de si” no sujeito contemporâneo e provocar, quiçá, uma conexão inédita do “amor de si à um novo amor”? Lembro-me aqui, de uma orientação de Lacan que você recupera, cuja leitura feita por você nos permite sublinhar a importância de formar analistas que, da condução dos tratamentos, deixassem ausente o seu eu. Você conclui: “é da análise do narcisismo do analista que se pode alcançar uma posição onde essa exigência ética se cumpra”. Tal esclarecimento anuncia o vigor com que o desejo do analista é alçado à ação lacaniana hoje. Pois, somente o analista esvaziado do seu eu pode lançar-se como objeto de plasticidade variável, ao gosto do freguês, e instalar sua presença ao lado de cada Um. Trata-se de uma instalação portátil, conforme disse Miller, que porta a presença decidida do analista esvaziado. A aposta freudiana na psicanálise, nos dias que correm, mais do que nunca precisa lançar mão dessa instalação portátil e saber fazer com tal esvaziamento, lá onde o Sujeito Suposto Saber não está. Não seria a partir desse esvaziamento que o analista se abriria à invenção, dando passagem ao inusitado que, na condução da clínica hoje, pode vir a ser causa de amor ao inconsciente? Por falar nisso, Nicéas, muito se discute, hoje, sobre o inconsciente real e o inconsciente transferencial. Depois de percorrer a leitura de sua obra e cotejá-la com minhas inquietações provenientes da clínica hoje, ainda, te pergunto: Será que na clínica dos nossos dias, podemos operar analiticamente sem religar o “amor de si” à um mundo novo: o mundo transferencial? Você acharia possível perturbar e enlaçar esse “amor de si” fora da clínica sob transferência? Por fim, o que minha experiência analítica e as análises que conduzo me deixam saber é que não há psicanálise sem amor! Por tanto, desde Freud até os dias atuais, parece caber ao analista, em cada caso, sempre relançar a pergunta destacada por sua leitura do texto de 1914: “Qual a direção que a libido toma numa clínica sob transferência?”. Esse passo dado por Freud e resgatado por você torna-se também a questão que nos orienta, em 2014, cem anos depois, rumo ao XX Encontro Brasileiro. O que a psicanálise tem a dizer sobre os destinos do amor, na vida e na clínica, hoje? Agradeço a sagacidade de sua leitura Sobre o narcisismo, em Freud, e sua generosidade em publicá-la. E, mais ainda, sua disponibilidade para esta conversa.
Com amor, 
Fernanda Otoni Brisset, 08 de março de 2014

Nicéas: Cara Fernanda, vamos conversar. São muito pertinentes suas considerações sobre soluções nos sintomas contemporâneos que evidenciam uma libido, não raro afastada, como você diz, na vida de hoje, do mundo exterior, “exilando o sujeito fora do circuito transferencial”. Suas questões são, então, atravessadas por essa mesma preocupação clínica: como fazer na clínica dos pacientes atuais para que continuemos nos servindo da condição ímpar de entrada numa análise, a transferência? Talvez haja naatualidade, de fato, uma hiperinfatuação narcísica de sujeitos “en-si-mesmados”, como você tão bem os nomeou, sujeitos “curto-circuitados” do Outro, apr esentando-se no dispositivo de palavras, como você os descreve ainda, numa “exigência imediata de satisfação”, perseguindo-a, para obtê-la, situando-se “fora da flechada sinuosa do amor ao inconsciente”. Daí a importância de uma releitura do texto freudiano, como você testemunha tão precisamente com suas anotações. Vou me deter em alguns momentos importantes delas. Essa questão da função do narcisismo na experiência eu quis, justamente, sublinhá-la lembrando que Freud já a introduziu na abertura mesma de seu escrito de 1914, afirmando o narcisismo como aquilo que mais tenazmente se opõe ao trabalho do analista. Assim, o “amor de si”, Freud o inscreve do lado da resistência à análise: função imaginária, sublinhada depois por Lacan, num de seus Escritos, como função que preside o investimento do objeto como narcísico. Ou seja, em 1914, Freud explica à resistência à análise pela vertente do amor, ao nos ensinar que esse amor em seus fundamentos é narcísico. Amor que sopra no ouvido do sujeito como impedir que seu caminho na análise o conduza cada vez mais a se confrontar com a castração: “a persuadir o outro que ele tem o que pode nos completar, nós nos asseguramos de poder continuar desconhecendo, precisamente, o que nos falta” (LACAN, Seminário XI). A atualidade de posições fixadas ao narcisismo do sujeito, às quais você se volta no conjunto de suas questões, talvez revelem, hoje em dia, uma disposição ainda mais radicalmente contrária à experiência do que aquela que se oferecia como resistência ao trabalho de Freud nos anos 1914, os pacientes atuais parecendo, na entrada mesma no dispositivo de palavras freudiano, numa disposição em não consentir no estabelecimento de um qualquer laço transferencial que possa fazer barreira ao narcisismo. Aqui, sublinho a lembrança que você nos traz de uma outra afirmação de Freud deixada em 1924: “o amor de si mesmo só conhece uma barreira: o amor pelo outro, o amor pelos objetos”. Mas, se hoje em dia for assim, e se os novos tempos forem tempos de inexistência do Outro, que esses sujeitos, no entanto, tão aparentemente e radicalmente “en-si-mesmados”, continuem a nos procurar, isso não nos exigiria continuar a apostar que as coisas num momento depois aconteçam diferentemente e reabram, a partir desse encontro com um analista, o circuito entre o eu e o ou tro sob transferência? Otratamento que será dado na análise a esse “amor de si” será, então, o tratamento que se dá ao amor de transferência em sua face não de motor mas de resistência, para a qual Freud, nos orientou alertando-nos que, para estancar o trabalho da simbolização, o sujeito recorre, para não renunciar ao narcisismo, a uma identificação simbólica para ser amado, apresentando-se amável a partir do Ideal. Lacan, depois de Freud, sublinhou a importância que terá a posição do analista diante do fechamento do inconsciente e do impasse do desejo que essa saída identificatória acarreta, a função do desejo do analista sendo a única a operar para que se alcance a maior distância entre I e a. O que Lacan nos alertou com esse ensinamento foi uma manobra do sujeito: investir o analista como Ideal do Eu é sempre uma armadilha para induzir o Outro a se fazer outro. Ou, dizendo de outra maneira: na experiência, o sujeito da fala continua a se amar através do Outro e sua fantasia de amar o outro é sempre uma tentativa de reduzir o Outro ao mesmo. Mas a aposta de que as coisas possam não permanecer engessadas e serem diferentes diante da pregnância desse “amor de si” que entrava a ação do analista, não é, no entanto, uma espera passiva. O que me permite agora dizer duas ou três sobre o “esvaziamento” do eu do desafiados na clínica contemporânea. Primeiramente, sua questão me fez pensar nas respostas variadas do analista “multiuso”, ao qual Miller nos apresentara há alguns anos à nossa reflexão, quando a discussão sobre a prática psicanalítica atual nos reintroduzia ao debate em torno de indicações e contraindicações da análise. Mas você prolonga o eixo da discussão, interessando-se pela condição mesma da “invenção”, vendo no “esvaziamento” do eu do analista, ao qual Lacan alude num dos primeiros livros de seu Seminário, a condição para poder inventar. Diz Lacan que se a gente forma analistas é para que eles deixem ausente da direção de seus tratamentos o próprio eu. Senão, foi como eu li você em suas notas de leitura, em vez de “invenção”, o narcisismo do analista o fará conduzir seus tratamentos a partir de um eu inflado da soma de seus preconceitos (LACAN, Seminário I). QuandoLacan se preocupou em denunciar a solidariedade entre a paralisia de ideias e mesmo os desvios, de um lado, no movimento psicanalítico e, de outro lado, a hierarquia na instituição psicanalítica, ele o fez reconhecendo que, nela, uma “cooptação de sábios” sustentava permanentemente a promessa de “um retorno a um estatuto de prestígio conjugando pregnância narcísica e astúcia competitiva”. Para Lacan, se a “liquidação” dessa conjugação não se alcançasse na análise do analista, o sujeito se manteria na tentação de recair no mesmo pecado, cujo nome, segundo ele, era hierarquia. Assim, para Lacan, toda heresia na psicanálise viria desse pecado que nos alinharia, em permanência, contra o discurso analítico. Por isso ele apelidou a IPA, associação por excelência hierarquizada, com a sigla SAMCDA (Sociedade de ajuda mútua contra o discurso analítico). Eu gostaria de terminar esta breve conversa a partir de suas anotações sobre o narcisismo na clínica contemporânea, pela lembrança de como Lacan atrelou narcisismo e poder na análise do analista. Em 1958, na “Direção do tratamento e os princípios do seu poder”, ele já nos advertira para os efeitos de uma não-análise do narcisismo do analista: ele não renunciaria jamais à sede de poder de todo sujeito, “um poder sempre aberto a uma direção cega”.
Carlos Augusto Nicéas, 14 de junho de 2014