28/07/2014

Um amor que dura

Escultura de sombras de Tim Noble e Sue Webster
Evento-Cartéis
Hélène Bonnaud [1]

        O amor de transferência funda a realização mesma da operação analítica. Sem esse amor, o inconsciente não tem nenhuma chance de se manifestar. O amor é, portanto, uma necessidade para se entrar na experiência. É ele que permite a abertura do inconsciente com o aparecimento dos sonhos, dos lapsos, dos esquecimentos, e da própria interpretação que o analisante produz para nutrir o amor pelo inconsciente.
        Ora, nos diz J.-A. Miller, « o inconsciente transferencial é uma defesa contra o real »[2], o que indica que esse amor permite, a uma só vez, que a interpretação do inconsciente se constitua em saber, e também, que seja o que vem colocar à distância o real. O que resta desse amor, uma vez enxugados os acontecimentos transferenciais que tinham lhe dado uma consistência real?
        É pela repetição e pela inércia que se manifesta clinicamente o real no tratamento. Alguma coisa não pode mudar; alguma coisa que dura, que se choca ao fato de que a fala não tem efeitos sobre esse resto e, nesse momento de análise, alguma coisa da crença no inconsciente se rompe. Na transferência, o que sustentava o desejo e fazia consistir a fineza do encontro entre significante e sentido, significante e gozo, perde sua consistência. Mas, dependendo da manifestação de sua presença ou não na transferência, os efeitos serão diferentes. Assim, parece-me que, à facticidade do amor, deve advir a eficácia da presença – um dos nomes do desejo do analista.
        Na minha análise, eu sofri do encontro com o real da repetição que tomou, no momento mais agudo de sua manifestação, a forma de uma renúncia. Eu não encontrava saída para minha análise, como se eu devesse ainda encontrar um sentido último ao que não cessava de me fazer falar, não sobre o inconsciente, mas sobre o real que se impunha. Esperava um apaziguamento que me indicaria uma solução ao meu percurso infinito. Pois, a infinitização da análise dá um sentimento de fracasso da análise, repetindo, então, o gozo que este fracasso era para mim. Tinha conseguido fazer de minha análise um gozo com o fracasso, um gozo com o fracasso « em branco » : interpretara meu analista, para fazer escutar o equívoco, remetendo à posição do pai pronto a pagar por ela com um cheque em branco, essa verdade do sintoma.
        O analista, ele também, era impotente para me tirar desse impasse. Eu o deixei quando, de maneira totalmente inesperada pois eu não sonhava mais havia muito tempo, sobreveio um sonho que se escreve com um nome próprio: Revol. O analista quer relançar à associação livre, dizendo: « Revol ? » Mas eu lhe faço objeção, recusando. De fato, eu dei um basta no sentido. Ali onde o analista pega rapidamente o significante para me abrir ao equívoco desse significante, eu vejo somente um relançamento da decifração e decido pará-lo, soltando o gozo do equívoco, do qual eu fui uma adepta fervorosa.
        Nesse momento, o analista não encarna mais o Sujeito Suposto Saber, mas o real da psicanálise, como aquilo que produz apenas repetição e que fixa o sujeito a seu ser, um ser de resto.
        Foi bem mais tarde, numa sessão de supervisão, que eu alcançaria pela primeira vez a função mesma dessa posição de resto. Falando de uma mulher que se via como um dejeto, e desdobrando essa questão em supervisão, o analista me diz ao final da sessão: « sim, há histéricas que estão nessa posição de dejeto».
        Tomo para mim a interpretação e decido, então, retomar minha análise.
        O analista, através de sua interpretação, põe novamente a trabalho o Sujeito Suposto Saber, não aquele do saber a decifrar, mas do saber ler.
        O amor é aí contingente. Certamente, ele é necessariamente convocado nesse laço de amarração em que dizer ganha um valor decisivo. Nessa retomada da análise, a transferência não é mais um obstáculo e a questão do final de análise, que tinha preocupado tanto a ela, que tinha tomado a consistência de uma parede intransponível, inicia-se, quebra-se. Ela solta alguma coisa de seu ideal de conseguir. Ela não é mais movida por um desejo de terminar sua análise e fazer o Passe. Essa questão passa a atormentá-la menos, deixando-a, então, numa leveza maior quanto ao seu desejo. Ela renunciou a encontrar a palavra final, ou a obter « a satisfação final ». Ela faz a experiência que o analista, longe de empurrá-la ao Passe, parece, ela acredita, não convocá-la a isso. Ela fica, ao mesmo tempo, aliviada e um pouco culpada, pois, de fato, ele encarna para ela aquele que detém o laço mais estreito com o Passe e com a transmissão da psicanálise.
        Sua transferência pela Escola encontra-se também mais leve. Ela escuta de forma diferente os analistas que encarnavam para ela o saber inalcançavél, e diz para si mesma que ela também pode ter alguma coisa a dizer. Seu analista sustenta seus avanços nos trabalhos que apresenta.
        Ela apreende, à medida que se implica na Escola, que sua relação com a causa analítica está em ressonância com sua experiência da análise.
        Ela percebe que a transferência não está mais propriamente orientada para o analista, mas que há uma parte dela que retorna sobre o próprio sujeito, sobre a experiência real da análise. Há um retorno do amor, como dizemos que há um retorno da experiência. É esse retorno do amor pela análise que o fez resto inédito e invariável, e constitui um rochedo sobre o qual se funda o desejo do analista. Há uma frase de Lacan, de que gosto muito, que diz que « o que solda o analisante não é o analista, mas o par analisante-analista »[3].  Quando nos separamos do analista, nos separamos desse par aí.  E, de fato, é este que retorna quando se interrompe a análise antes de seu fim. O parceiro-analista é fixado pelo fantasma do analisante. Quando ele muda, alguma coisa desse par perdura. É por isso que mudar de analista não é necessariamente uma solução para tratar o real da experiência. Mas às vezes essa mudança se impõe e permite encontrar uma resposta e sair do impasse pelo qual nos encontrávamos tomados.
        Ora, parece-me que esse par não se desfaz jamais totalmente, uma vez que vamos repeti-lo, mas de forma inversa, ao passar de analisante a analista. E, quanto mais conseguimos nos destacar do par analista-analisante, mais poderemos fazer semblante de objeto a para os analisantes que veem se analisar conosco. Daí, essa separação do par analista-analisante exige que se tenha desnudado as fixações imaginárias do amor parental, que se tenha desenredado o amor pelo analista e, como histérica, desamarrado a demanda de amor incondicional que se associa a ela, para encontrar, no fim do caminho, um amor de transferência despojado, liberado das aporias do afeto, e que esteja em consonância com um amor sem esperança de cura, um amor incurável.
        O amor de transferência é, portanto, o que não se liquida no final da análise. É um resto vivo e motor do desejo do analista.
        A todos aqueles « que lavam as mãos, distanciando de si a dita transferência, recusando o surpreendente do acesso que ela oferece ao amor, nós dizemos que eles são falsários da psicanálise. »[4].

Tradução Ana Paula Lorenzi


  1. Trabalho apresentado em janeiro de 2014, na École de la Cause Freudienne, na noite em que os AEs foram convidados a falar sobre “O amor de transferência”, na atividade proposta por Bruno de Halleaux e animada por Anne Lysy, que gentilmente nos concederam a autorização publicar os textos apresentados pelos colegas. A eles nosso especial agradecimento.
  2. Miller, Jaques-Alain. « Le réel au XXI° siècle ». La cause du désir n°83. Paris: Navarin Editeur, 2012, p. 94.
  3. Lacan, Jacques. « A terceira ». In Opção lacaniana, Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n° 62, dez/2011, p. 19 [«La troisième », La cause du désir, n°79. Paris : Seuil, 2011, p.19].
  4. Lacan, Jacques. “O aturdito”. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 479 [Lacan, Jacques. « L’étourdit », In Autres écrits. Paris : Seuil, 2001, p. 478].