28/07/2014

Ressonâncias

Delegação Geral: Mato Grosso do Sul/Mato Grosso
O CORPO E A URBE
- Fronteiras e Desordens -
Jornadas 2014
25 e 26 de julho de 2014

Carlos Genaro Fernández
Psicanalista - EBP - AMP
Eliane Calvet
Psicanalista - ECF - AMP
Marie-Claude Sureau
Psicanalista - ECF - AMP
Romulo Ferreira da Silva
Psicanalista - EBP - AMP



Argumento
O CORPO E A URBE
- Fronteiras e Desordens -

Ao encampar a proposição do binômio corpo e urbe como tema da nossa Jornada desse ano, além de nos alinharmos ao que será debatido no XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano em novembro em Belo Horizonte, nos lançamos também no desafio de leitura dos fenômenos que sustentam e radicalizam as mudanças verificadas nos modos de existência e laço da contemporaneidade, em tempos de dissolução do Outro.
Por certo, essa desvitalização do Outro enquanto endereçamento simbólico produz efeitos na instituição e na ordenação das subjetividades e corpos da cena contemporânea.
Nessa Jornada buscaremos trazer á lume as fronteiras do corpo enquanto sitio inalienável da expressão do vivo, e por isso mesmo gozoso, bem como, delinear as incontáveis possibilidades de desordem e/ou novos arranjos que dai possam advir. De como cada um (falasser) se produz enquanto efeito da interação dos registros heterogêneos do RSI - real, simbólico e imaginário, ou dito de outro modo, de como cada qual forjou sua singularidade frente ao acidente inaugural do encontro entre a palavra e a carne-lalingua.
Hoje, basicamente extraído da conjunção do discurso da ciência com o discurso capitalista, os significantes-amos da atualidade, os corpos por sua vez, publicam as vacilações próprias do antagonismo excesso/inibição, que são os efeitos polares desses a pelos discursivos.
De algum modo, hoje esses discursos encurralam as subjetividades atuais e promovem um desbotamento, uma "dessujeição", embalados por adágios que buscam tamponar a todo custo a não-relação-sexual, ao mesmo tempo em que difundem a utopia cientifica de que a felicidade é um dom coletivo.
Por outro lado, o que de fato se verifica é a proliferação dos sintomas silenciosos, cujos significantes estão precariamente presentes na sua vertente de sentido e de laço.
Com efeito, assiste-se a uma crescente alusão dos corpos sem sujeito, pronunciados a partir dos predicados apenas. Assim, pouco habitado pelo desejo, esses corpos são expressos geralmente na categoria do genérico: corpos anoréxicos, corpos obesos, intoxicados, siliconados. agitados, tatuados, solitários. insones, etc.
O que resta então desse regime de assunção do corpo na contemporaneidade é a constatação dos efeitos do real naquilo que desconserta os arranjos do corpo com o sexo e com o Outro. Aqui o real se apresenta como uma modalidade, um ponto de ruptura entre causa e efeito: o real sem lei, aquele que não quer dizer nada e a ninguém, sem nenhuma intenção ou sentido-fato apenas.
Por fim, essa Jornada visa reafirmar a função do analista enquanto um intérprete perspicaz e exigente da sua própria época, corroborando a prevalência do real do corpo, tomado como o lugar da consistência lógica do falasser.
Com Lacan sabemos que o acaso e a contingência são os verdadeiros móbiles da vida, e o que efetivamente inscreve o corpo como um irrevogável de gozo. Isso permite usufruir o esplendor estético do poema de João Cabral de Melo Neto, quando escreve:

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
O que vive choca,
tem dentes, arestas, ê espesso
O que vive é espesso
como um cão, um homem
como aquele rio
Como todo real
é espesso.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
que o sonho de um homem.

É com este espírito, de leitura atualizada da crônica atual, onde o que se inscreve é a prerrogativa do real nos corpos, cujos efeitos são incontestes na clínica atual, que a Delegação Mato Grosso do Sul/Mato Grosso da E BP, lhe convida para participar da Jornada 2014.

Ary Farias - Coordenador