27/06/2014

IV Encontro dos Núcleos da Nova Rede CEREDA no Brasil • O traumatismo e o real na clinica: o que as crianças inventam?

        A Diagonal Americana da Nova Rede CEREDA aderiu com entusiasmo ao tema proposto para 2014 e, nesta ocasião, Eric Laurent retomou a questão da análise das crianças como algo que implica eminentemente uma questão ética.
Acompanhamos há muito tempo a série de artigos e formulações tanto de Miller quanto de Laurent em torno dessa clinica - desde a questão do sujeito do inconsciente que não tem idade, ou a sexualidade feminina como condição previa à análise das crianças, a questão de que o sujeito não é o fruto de um desenvolvimento ainda que modifique ao longo do tempo o “uso de seu fantasma”, e mesmo as mais recentes em torno do medo, do saber e do segredo na criança, - como formulações que constroem a formação de analistas. O tratamento psicanalítico de uma criança não é algo menor ou prévio a um tratamento na vida adulta nem se limita apenas a que uma criança obtenha “uma versão do falo“. Trata-se, antes, da obtenção de uma “versão do objeto a”, ou seja, de obter efeitos de separação para que não seja o corpo da criança o que venha a responder como objeto do gozo do Outro, e que ela apresente, construa ou invente um sintoma do qual ela não mais apenas padeça, mas com o qual ela passa a operar. Enfim, trata-se de formulações das operações do sujeito e do analista com o sem lei do real. Este ano nos dedicaremos também à questão do traumatismo que, nos dias de hoje, mais do que nunca, se tornou um termo frequentemente convocado para explicar o inexplicável. O sofrimento moderno supõe um trauma, mas de uma maneira reconhecida, universal e indiferenciada. Apresenta-se um sofrimento sem sujeito. Toma-se o individuo traumatizado deixando pra trás o sujeito, e o sintoma fica esvaziado da dimensão de sua causa. Já a psicanálise não desconhece no traumatismo a parte do sujeito que não o reduz a ser uma vítima pois sabe que ele comporta os vínculos mais singulares com o fantasma. Neste ponto a pesquisa retoma conceitos fundamentais como o inconsciente, mas o inconsciente como o impossível à suportar, o inconsciente real. Em seu prefácio ao livro de Hélène Bonnaud, “L’inconscient de l’enfant”, Miller nos diz que “Há as formações do inconsciente, que se decifram, que produzem sentido. Mas há também o que faz buraco (trou) e o que faz excesso (trop), há assim o que faz “tropmatisme” ou “troumatisme”. A defesa, como dizia Freud, não tem a mesma estrutura do recalcamento. Ela está aquém. Aqui o falaser (parlêtre) fica diretamente, cruamente confrontado ao real, sem a interposição de um significante – que é cataplasma, unguento, medicamento.(...)De seu encontro com a linguagem o sujeito sai esmagado, sepultado sob o significante que o oprime. Ele renasce, born again, do apelo feito a um segundo significante. Ei-lo entre dois, recalcado, deslisando, ek-sistente, sujeito barrado e que se barra. Se um psicanalista consegue se fazer deste segundo significante, ele consegue milagres com a criança”. Do lado do analista trata-se sempre de dar lugar ao que nos dias de hoje não tem lugar, trata-se sempre de uma invenção, inventar o inconsciente, e assim, dar um lugar ao sintoma e seu núcleo, o traumatismo.
        Teremos o IV Encontro dos Núcleos Brasileiros da NRCEREDA que contará com uma conferencia de Maurício Tarrab, no dia 20 de novembro, por ocasião do XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, em Belo Horizonte. Contamos com sua participação neste trabalho que se inscreve na programação e na pesquisa dos Núcleos de Psicanálise com Crianças inscritos na NRC-Br.

Cristina Vidigal • Coordenadora da NRC-Brasil