09/06/2014

Eu te tenho em alta conta


Evento-Cartéis
O texto de Freud sobre o amor de transferência se dirige muito mais ao analista do que ao analisante. Ele diz que o analista “manipula matérias das mais explosivas e que ele deve operar com as mesmas precauções e a mesma consciência daquela de um químico”[2]
            No curso de minha análise, houve uma intervenção do meu analista que, num primeiro momento, pode parecer contraditória às precauções necessárias que Freud recomenda ao psicanalista. Nesta noite, interrogo essa intervenção, pois, ela toca de perto o tema do amor de transferência.
            Lembro-me do contexto dessa intervenção que operou uma báscula em meu trajeto analítico. Essa intervenção foi feita pelo meu segundo analista. Aquele que eu havia escolhido, pois eu o considerava em outro nível que todos os outros, a quem instituí como sendo o pai da Escola da Causa Freudiana e da Associação Mundial de Psicanálise.
            Graças ao meu percurso com ele, a figura do pai – do pai da realidade que eu herdei, figura pesada e marcante – pôde se reduzir consideravelmente. Seus botes sobre a figura do pai fizeram este descer do pedestal sobre o qual eu o instalei, e permitiram que eu me aliviasse consideravelmente do peso que ele encarnava diante dos meus olhos: um Outro imaginarizado, idealizado, inatingível e, sobretudo, feroz e unilateral com a criança que eu era, a criança querida da mãe.
            Pela primeira vez em minha vida – eu tinha então quarenta anos – tomei consciência dessa realidade que havia me cegado durante muitos anos. Não me senti mais obrigado a consagrar toda a energia para me fazer reconhecer por esse pai que, graças à minha análise, saiu do seu estatuto de um Outro rígido para ser não mais que um pai contingente, o pai que me foi dado.
            No entanto, apesar da destituição dessa figura paterna, a fantasia continuou a me cegar. O analista substituiu vivamente o pai despossuído. Secretamente, isso me deslumbrava pois, assim, ganhei em troca o seguinte: herdei um pai que não somente era dotado de um grande saber, mas quem, por outro lado, era generoso. Ele ficou livre da crueldade do pai que eu conhecia até então. De todo modo, esse ganho foi compensado por uma nova alienação ao Outro, e eu permaneci numa satisfação mortífera. Nada mais se modificava em minha análise.
Bruno Halleux
            Logo, como analisante atento e sensível ao fato de que eu o coloquei sobre o pedestal paterno, percebi os esforços que o analista fazia para que eu parasse de idealizá-lo tanto, e que eu pudesse, sobre ele também, colocar uma barra que o destituísse, o subtraísse de todo saber e do seu lugar de mestre.
            Não é simples fornecer a frase de uma fantasia fundamental. A minha, a frase que orientou de maneira inconsciente todas as minhas ações, poderia condensar-se em algo como: ser escolhido/excluído pelo pai. Não parei de colocar isto em cena em cada uma das minhas sessões. Fazer-me amar pelo pai, ser reconhecido por ele, sentar-me à sua direita ou saber suplantá-lo e, até mesmo, ocupar seu lugar. Cada vez mais, encontrar uma satisfação secreta ao me excluir da cena, ou excluir o outro: eis o que não cessei de trabalhar.
            É quando então sobreveio sua intervenção que a vivi como um sobressalto repentino e inesperado. Uma vez mais, eu me esforcei para seduzir meu analista, tomado pelo amor de transferência que me habitava, e eu o escutei dizer: “Halleux, eu te tenho em alta conta!”
            Fiquei estupefato com isso. Durante um grande número de sessões, durante meses, anos, eu só procurava essa palavra dele, e eis que ele a solta para mim sem rodeios, abruptamente, depois de muito tempo. É insuportável – que ele me diga isto, que ele me dê esse lugar à sua direita onde eu sou enfim reconhecido ou amado por ele –, eu me dissolvi em lágrimas.
            De que operação se trata nesse “Halleux, eu te tenho em alta conta”? O que ele visou e tocou de forma tão justa?
            Eu disse que essa intervenção pode parecer contraditória em relação às precauções recomendadas por Freud frente ao amor de transferência.
            Como considerar que o que visa o analista toca uma operação própria ao seu desejo, ao que Lacan nomeou como o desejo do analista? Seu enunciado veio flechar, sem desvios nem precauções, o objeto mesmo, no coração da minha fantasia. Essa flechada não aconteceu sem me fazer vacilar. Se, de fato, o analista me tem em alta conta, resta-me então tomar meu rumo. Dizer essas palavras colocou em risco o valor para mim do objeto, uma certa extinção. Este foi realizado, esperado, acabado. O efeito que este dizer produziu foi o surgimento da angústia, de tal maneira que me refugiei no campo e, algumas semanas mais tarde, arrisquei deixá-lo, ele, o analista que situei como o pai da AMP, cuja transferência que eu tinha com ele permanecia intacta.
            É preciso ser audacioso para ousar dizer ao seu analisante “meu caro, eu te tenho em alta conta”. Isto pertence a um cálculo, a um desejo que visa confrontar o sujeito sem mediação ao objeto, ou seja, tocar o real, reduzir o analisante ao seu real, como sugere Jacques-Alain Miller em sua alocução final do último Congresso da AMP.
            No Papers no. 5, Damasia Amadeo de Freda coloca a hipótese de que o século XXI produzirá um psicanalista novo, um psicanalista orientado mais pelos índices do real do que pelo simbólico e pela significação. Consequentemente, o amor de transferência, se ele não se dirige mais ao saber pelo fato de que ele se encontra desacreditado e desarticulado, pode tomar então a forma de um amor que se dirige ao real. O desejo do analista, nisso, encontra-se transformado.

Tradução: Samyra Assad
Revisão da tradução: Ana Paula Lorenzi


[1] Trabalho apresentando dia 14/01/2014 na École de la Cause Freudienne, quando alguns AE foram convidados a falar sobre “O amor de transferência”, em uma atividade proposta por Bruno de Halleaux e animada por Anne Lysy, que gentilmente nos concederam a autorização para traduzir e publicar os textos apresentados pelos colegas, e que divulgaremos neste Boletim. A eles nosso especial agradecimento.
[2] FREUD, S. (1915) “Observações sobre o amor transferencial (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise III)”. In: Edição Standard brasileira vol. XII. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1969, p. 221.