27/06/2014

Editorial

Desconsertando a rebimboca da parafuseta da máquina dos homens medianos.

Fernanda Otoni • Coordenadora Geral • XX EBCF
“O homem médio, quem é? Eu, o senhor, meu zelador, o presidente da República?
Existem indivíduos, é tudo. Quando ouço falar dos homens da rua, de pesquisas de opinião, de fenômenos de massa e de coisas desse gênero, penso em todos os pacientes que vi passar pelo divã em quarenta anos de escuta. Nenhum, em qualquer medida, é semelhante ao outro, nenhum tem as mesmas fobias, as mesmas angústias, o mesmo modo de contar, o mesmo medo de não compreender.” (Jacques LACAN, 1974)
      Quem trabalha nas cidades sabe - e já faz tempo! - que políticas públicas movem as engrenagens de suas máquinas visando fabricar e empacotar o homem, desde criança, segundo a média dos padrões ditos normais. Privilegiam e mesmo forçam, no campo da saúde, assistência social, educação e justiça, práticas que visam prevenir, normalizar e controlar. Prometem eliminar os riscos, garantir segurança e bem estar, portanto, enaltecem estudos e práticas que dizem garantir a normalidade da ordem pública por seu "poder" de antecipar e evitar acontecimentos “traumáticos”, na cidade e nos corpos dos seus citadinos. 
      Esse empuxo à normalidade e ajuste do comportamento, não é de hoje. Ao assistir o vídeo do Diretor do XX EBCF, nosso colega Henri Kaufmanner, no compasso de seu sotaque, ele nos lança ao fundo do baú da psicanálise, para resgatar a obra de Paul Schreber e elucidar, de forma clara e inédita, o que a criança schreberiana tem a nos dizer sobre o engendramento entre trauma e violência, face à máquina da exigência paterna, para extrair, daí, uma leitura da atualidade dos novos sintomas.  
      Essa atualidade é companheira dos analistas praticantes que, da experiência nas instituições ou das conversações interdisciplinares que participam, confirmam um número significativo de crianças, jovens e adultos que respondem à exigência de adequação comportamental, produtividade e felicidade colocando o corpo em risco, expondo assim um pedaço de real fora dos padrões, irredutível e que não cessa, corpos aprisionados num circuito iterativo, que giram para além de sua dimensão imaginária e simbólica. Esses casos muito raramente chegam a formular uma demanda de análise à um analista e, na maioria das vezes, gravitam em torno de políticas públicas quando não são tragados por elas.

      A psicanálise tem responsabilidade para com sua época.
      O CIEN, a Nova Rede CEREDA e a Rede TyA do Brasil gravitarão, como eventos satélites, em torno do XX Encontro Brasileiro e trarão o tom, o apelo e a tarefa de impossível recuo que atravessa a ação lacaniana, de norte a sul do Brasil. Perguntaremos, como a psicanálise, através de seus diversos dispositivos, pode contribuir ao momento atual, estabelecendo conversações em condições de elucidar o que surge através das embalagens dos novos sintomas, hoje, em diversos casos e situações interdisciplinares. 
      Quem acompanha o trabalho dessas redes e laboratórios do  Campo Freudiano sabe que, por alí, encontramos a força viva da orientação lacaniana em sua extensão pela cidade, sempre pulsante, na forma da psicanálise aplicada e do seu recenceamento. São iniciativas resistentes às fórmulas para todos e, onde quer que militam, insistem em transmitir que será mesmo fora do ideal banal do homem médio, onde o fora da norma se instala em sua radicalidade, justo aí, teremos a chance de acolher o que se enuncia como singularidade, como bem entende a psicanálise. Considerar essa resposta singular é dar lugar ao tratamento que cada um pode constituir e inventar face ao real de nossa época.  
      Vocês encontrarão, nesse boletim, os argumentos, eixos de investigação e informações para inscrições e envio de trabalho para os encontros do CIEN, Nova Rede CEREDA e Rede TyA. Esses eventos do Campo Freudiano acontecerão no dia 20 e 23 de novembro, antes e depois do XX Encontro Brasileiro.  
      Não percam essa semana lacaniana em BELÔ!!!