20/05/2014

Sobre a expressão “Amor do real”

© Micael Tatoo
Evento Cartel • Entrevista
Pequena entrevista com Marcus André Vieira, por Carlos Augusto Nicéas, realizada em março de 2014
            Aos cartelizantes do Cartel do Passe da EBP será pedido que eles, em plenária, discutam os destinos do amor no final da análise.
Em nosso Cartel da Diretoria de Cartéis da EBP, lemos alguns textos de uma recente noite de AE na ECF onde essa questão circunscreveu particularmente o destino do amor de transferência na experiência. Eu conversei com Marcus André Vieira sobre isso, e levei  para as reuniões do nosso Cartel as respostas que ele me deu e que nos alimentaram no trabalho que continuamos produzindo. Reproduzo-as aqui, em nosso Boletim.

Carlos Augusto Nicéas: Marcus, dos textos que temos lido sobre o destino do amor de transferência no final da análise, alguns deles pareciam aludir quase a uma passagem ou a uma transformação: do amor ao saber a um “amor do real”.
            Em nosso Cartel, prosseguimos na discussão desse “amor do real”, desdobrando questões para um afinamento conceitual, a partir da expressão “amor do real” enunciada pelos autores. Começamos perguntando-nos: o real como objeto de amor?
            O que imediatamente você poderia nos dizer sobre isso?
Marcus André Vieira: “Amor do real”, a expressão teria um duplo sentido: real como objeto de amor (amor pelo real, amar o real) e um amor que surgiria do real, que viria do real.
Carlos Augusto Nicéas: O primeiro sentido, amar o real, não subtrai dessa afirmação a questão do ideal atrelada ao amor. Em qual dos dois sentidos uma discussão encontraria seus termos justos?
Marcus André Vieira
Marcus André Vieira: Apenas o segundo sentido me parece interessante, porque, você tem bem razão, a ideia “amar o real” sempre faz pensar em amar um objeto e como ter um objeto de amor sem um tanto de imaginário? Neste caso, o imaginário do real seria o de um ideal de real, o real como espaço de liberdade absoluta, por exemplo, ou como de um “aqui e agora” ideal.
Carlos Augusto Nicéas: Fale um pouco mais, então, do segundo sentido, um amor que viria de uma nova maneira de viver o real?
Marcus André Vieira: Esse segundo sentido poderia ser aproximado do “novo amor” do Seminário XX ou de um amor “mais digno” do qual Lacan também falou. Mas há sempre o perigo de se imaginar que o final de análise é feito de uma novidade total, de uma novidade “no real”.
Carlos Augusto Nicéas: E então...
Marcus André Vieira: Jacques-Alain Miller fala de uma satisfação a mais (suplementar) em seu Curso “Coisas de fineza em psicanálise”. Acho que fica bem melhor ir por aí: um gozo que se torna disponível, mais por acréscimo do que por novidade, mais por redução de um desperdício do que brotejando de novas fontes. Pelo menos foi assim na minha experiência de análise.
Carlos Augusto Nicéas: Mas, e o amor?
Marcus André Vieira: Prefiro caracterizar essa nova satisfação com o termo elã, ou ainda “entusiasmo”, mesmo se sabemos o quanto ele também já virou uma figura obrigatória em nosso meio para caracterizar o analista, inclusive por isso criticada por Miller. Ainda assim, “entusiasmo” ou “elã” me parecem melhores que “amor”, porque a experiência do amor, apesar de ter um aspecto bem real, não existe sem muito de imaginário, o que poderia levar a crer que o importante é assumir no final, por exemplo, uma nova identidade amorosa, uma nova persona e aí voltaríamos para o mesmo problema do início: não podemos imaginarizar demais senão caímos na idealização. Não podemos esquecer que estamos falando de uma experiência relativamente pobre em termos de imaginário, apesar de muito rica em termos de vivido.