20/05/2014

Duscumpadi: De Gravata e Unha Vermelha

Dudu Bertholini1
Uma noção de invenção do corpo contemporâneo
Maria Noemi de Araujo

De Gravata e Unha Vermelha (Chnaiderman, 2014) instiga o debate sobre as novas nomeações da sexualidade. Sem se preocupar com um modo certo ou errado, suas 16 personagens negam qualquer classificação de gênero, manual de Psiquiatria ou GLBT. Assim, com a boca borrada de batons vermelho cereja, essas personagens falam da cultura do crossdresser, do transexual, de menstruação imaginária, amor materno conquistado, calcinha como fetiche, usa salto alto, faz chapinha e embrulha seu corpo com panos coloridos. Aqueles que se declaram heterossexuais brincam com ideia de poder cobrir seus corpos com roupas femininas no carnaval.

     Sem dever nada àquilo que a psicanálise de orientação lacaniana chama de ética, o documentário tece uma trama em torno da escolha.
     Na sua construção de um discurso sobre a sexualidade no contemporâneo como algo Singular, ou impossível ser definida e inscrita no discurso Universal.  “De gravata...” discorre sobre o modo como cada um de seus personagens escolheu e se responsabiliza pelo seu modo de gozo.

     Numa pegada do “saber o que fazer com isso”, algumas personagens narram seus malabarismos, ou como aprenderam a se virar com aquilo do corpo que, em algum momento da sua vida, precisaram ser escondidos, descartados ou construídos como um pênis, seios, vagina, pelos, barbas, gogó; ovários e trompas que “não serviam para nada”.
     No momento em que transita no Congresso uma PRC para incluir a palavra invenção em todos os textos que constarem as palavras ciência e tecnologia, o filme apresenta uma noção de inventar seu próprio corpo no contemporâneo implicada em um modo de gozar – só ou na companhia de outro (a). Delineada no campo do humano como um saber o que fazer do desejo essa noção alia-se às falhas dos discursos da Ciência e da Moda. A exemplo disso, temos o testemunho de uma que diz preferir não ter prazer genital, pois o consumo de hormônio feminino inibe a libido. Ou seja, na invenção desse corpo algo se perde. Mesmo não se guiando pelo padrão universal de feminino e masculino, outra revela ter buscado ajuda no Hospital das Clínicas de Goiânia para solucionar seu problema.
     Embora, isso se associa ao desenho de um corpo imaginado, segundo um padrão classificatório pela moda e ciência, o filme se detém na responsabilidade de cada um pelo seu ato de dar um destino único para o seu próprio gozo.
Embora ancorado no tom da criatividade, a narrativa do filme mostra como essas pessoas buscam uma “não nomeação” para aquilo que fazem dos seus corpos, aliados ou não às violências dos discursos da Ciência, da Moda, do Mercado. Isso as/os livram da violência que é a tal inscrição na Linguagem?
     O refrão “ser menino ou menina, não fere o meu lado masculino” (Gil), dialoga com o figurino e gestos estilizados da personagem Bertholini e com as tirinhas do cartunista Laerte que passeiam na tela. Interpretações de Ney Matogrosso contrastam com e figurinos e imagens de shows de uma cantora popular produz um efeito Cult.
     Surpreende o modo como a noção de mãe de trans... atravessa diagonalmente o documentário. Quem é a mãe das pessoas “sem classificação”? O refrão “mamãe eu sou é homem”, cantada por Ney trai o filme ao nos conduzir à dúvida – Uai! O filme é sobre a mãe?

SP 07/04/2014


1 Foto de divulgação do Dudu Bertholini: De gravata e unha vermelha, documentário de Miriam Chnaiderman (2014),  produzido por Reinaldo Pinheiros e Sequencia 1 exibido  19º. Festival “E Tudo Verdade...”