13/05/2014

Dessa vida que vai além da vida dos corpos

Fernanda Otoni Brisset - coord.  XX EBCF
     No final de 2012, por ocasião do XIX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, a então Diretoria da EBP lançou a coletânea "Violência - sintoma social de nossa época", destacando a presença desse fenômeno, no dia a dia de nossa prática clínica. Já era tempo! Pois, “acaso não sabemos que nos confins onde a fala se demite começa o âmbito da violência, e que ela já reina ali, mesmo sem que a provoquemos?” (LACAN, [1954] 1998, p. 376). Essa observação de Lacan nos levou a investigar o quê, desse sintoma social, alcança o inominável do trauma em cada um. Eis, então, o tema do XX Encontro Brasileiro: Trauma nos corpos, violência nas cidades. Por essas veredas, se instala entre nós a tarefa de investigar como a “violência”, sociologicamente registrada nas cidades, se enlaça ao real de nossa experiência clínica. Como também nos adverte Lacan, violência ou fala é o que pode produzir-se numa relação interhumana ([1958]1999).

Un Vândalo? Por uma leitura lacaniana da violência nas cidades
     As manifestações de rua, ocorridas em julho de 2013, entraram para a história de nosso país, transmitindo por sua forma inédita de querer dizer um novo modo de viver a política na sociedade atual. Esse movimento enlaçou muitos de nós, que também fomos para as ruas, compartilhamos opiniões e escrevemos a respeito, numa ação decidida a dar corpo político àquele movimento autêntico que anunciava um novo tempo.
     Contudo, na solidão da massa, também convivem uns sem os outros. No contexto  atual, mais e mais, aglomerados de uns sozinhos se destacam, demonstrando a força desse Um mesmo só. No caso de julho 2013, uns estavam por ali segurando suas tabuletas particulares; outros faziam coro em nome de um discurso hedonista dos direitos, bem como não faltaram aqueles que forçavam o direito ao passe livre pulsional. Foi um movimento sem igual, plural, uma nova forma de política extraída da força de Um a Um, que pode prescindir da identificação a um líder. Algumas vezes, o pior também aconteceu. Ali, entre tantos, irrompia uma violência individual desregrada. A mídia rapidamente deu nome ao acontecimento – os autores desses episódios de violência isolada na massa foram chamados de “vândalos”.
     Ana Lúcia Lutterbach, por ocasião do Seminário Haun ocorrido em Buenos Aires (2013), a partir de um retorno a Freud, aponta um real em jogo nas manifestações públicas: “Não há massa sem violência!”. Tal intervenção me permitiu o frescor de uma abertura para ler o momento atual: Há Un. Portanto, a massa não existe! E a forma como esse Um se manifesta surge engendrada às coordenadas sociológicas e políticas de sua época. (Lacan; Criminologia [1950] 1998).
     A psicanálise de orientação lacaniana, em sua ação nas cidades, testemunha e acolhe as consequências subjetivas dessas novas formas de viver isso que impulsa a vida, esclarecida que a pulsão de morte participa desse movimento. A experiência analítica pode declarar que o termo “vândalo”, com sua carga moral reducionista, camufla com a opacidade do sentido a desordem no real na vida cotidiana e como isso se manifesta e afeta cada um em sua causa mais íntima. Propomos pensar a "violência como uma manifestação que ultrapassa os limites da linguagem" (ALVARENGA)1 e que, evidentemente, é preciso ler o que isso fala e tem o que dizer. É da nossa responsabilidade!
     Mais além do "vândalo", apostamos que ha um que se agita e que pode vir a encontrar no dizer uma outra forma de viver a pulsão. Não recuaremos face ao real que traumatiza a montagem social dos dias que correm e às conseqüências subjetivas que se insurgem face às políticas desbussoladas regidas pelo capitalismo acéfalo. Estamos por aí, e oferecemos a presença do desejo do analista, onde a promessa do significante não faz mais sentido, rumo ao que cada Un pode inventar para estar à altura das exigências de seu tempo.

A solidão do gozo e o curto-circuito da adição
     Sérgio Laia (2007), ao investigar a violência urbana que cresce entre crianças e adolescentes, denota uma relação entre a demissão do pai e a ampliação da dominação materna. Tal dominação materna não dispensa a parceria com as ofertas da tecnologia científica com objetos que prometem suprir a função de um Outro, ali ao lado.
     Coisas que valem nada, como iPad, iPhone, podem valer muito para quem não as possui, podendo levar ao rompante de uma violência intensa, pelo esforço em subtrair do Outro o objeto de gozo, “devido ao concentrado de agalma que possui” (LAURENT, 2012).
     Esse é o circuito da adição — o circuito capitalista. O mais-de-gozar como um valor agregado no objeto. A violência de hoje não irrompe a partir de um valor incrustado ao significante — valores que apontavam para o ideal, a honra, a pátria, etc. Com a mutação do discurso do mestre em discurso capitalista, o “a mais” está agregado ao objeto — “a mais” de gozo que dispensa o Outro significante.
Ao dispensar o laço à esse Outro a quem não mais se crê, se alcança a solidão da massa. Hoje, talvez, devido a essa mutação do discurso do mestre pelo discurso capitalista, recolhemos “massas não organizadas e violência individual terrível”, e o mercado difunde “objetos liberadores da excitação”, o que facilita a passagem ao ato (LAURENT, 2012). A dominação tecnológica com seus objetos de gozo imediato demitiu o valor significante para elevar o valor de gozo. Oferta-se objetos para consumo, que curto-circuitam o percurso ao Outro e entregam um gozo “a mais”, funcionando como se fossem drogas. Assim, uma sociedade movida pelo discurso capitalista imprime um ritmo acelerado rumo ao objeto de consumo, uma cidade compulsiva que, presa nesse circuito iterativo, passa ao ato.

Dessa vida que vai além da vida dos corpos...
     Em um circuito acelerado e excitado, o ato irrompe em conformidade com a pulsão de morte. Laurent (2012) se refere a essa força propulsora do ato como uma "vida que vai além da vida dos corpos”. A substância que está em jogo na violência é “a pulsão de morte que se manifesta em nossa contemporaneidade”, conforme com o regime normal das civilizações.
     O regime normal considera a irrupção da natureza real da pulsão, em qualquer época.  Isso é o que não muda. A violência é força viva, com vida própria. Essa vida autônoma está em cada um, desde que a linguagem cunhou o corpo com sua prensa indizível e sem sentido, forjando o traumatismo que inaugura a experiência do falasser. Desde então, a “vida que vai além da vida dos corpos”, mostra-se nas discórdias da linguagem, na violência cotidiana e fora  de série, sempre que não há mais um “significante para fritar”. Esses acontecimentos atiçam o trauma nos corpos, uma vez que estão destinados à iteração do impossível de dizer. Isso se mostra, desde a irrupção ruidosa de grandes desastres e, ainda mais frequentemente, nas marcas silenciosas de catástrofes singulares.

O trauma nos corpos
     A “violência” que interessa ao psicanalista é aquela que não muda nunca e, a partir do real sem lei que trafega nas cidades, se atualiza no detalhe sutil que cada um extrai das catástrofes e desastres, vivificando o traumatismo inaugural da vida nos corpos falantes, tal como a entendemos. Essa “violência” Lacan (1999) a nomeou como “a brutalidade opaca da vida”. O último ensino de Lacan forja o neologismo troumatisme, jogo com as palavras trou (buraco, furo) e traumatisme (trauma). Esse buraco que a linguagem faz no organismo vivo. Quando não estamos no campo do organismo, só existe corpo troumatizado.
     Do ponto de vista da psicanálise, um corpo vivo é um corpo falante, ou seja, marcado pelo troumatisme. O trauma nos corpos ou, com Lacan, o furo dos corpos, é aberto pela ferocidade do significante sem sentido que intersecta, corta, e faz aí um buraco, o trou do troumatisme. Esse significante é o que abre alas ao Um da vida, que conecta o corpo à sua época, à cidade que o acolhe.
     Esse esforço de grampear a substância gozante à imaterialidade significante, deixa um resto, desobediente e sem lei... (A “vida loka”, que dizem os jovens que sabem e testemunham, no despertar da adolescência, a força viva que vai além da vida dos corpos) e que, de forma contingente, pode se manifestar. A vida que conta é a vida que passa em corpos esburacados, em corpos traumatizados. Há Um que passa por aí, e a psicanálise trabalha para produzir sintomas, amarrações lá onde isso insiste em passar livremente. Os analistas testemunham que isso pode passar pelo sinthoma, que cada um pode encontrar uma forma, não-toda, de dizer e saber fazer com o impossível de dizer. Talvez hoje não passe mais amarrado à exceção da norma fálica ou paterna, mas alojado ao que decanta como único, modo de gozo de cada um.

Epidemia do Um a UM
     Que podem os analistas? Eles podem provocar a "epidemia do um a um", pois um analista não poderá prometer felicidade. Tal promessa de hedonismo, conforme desenvolve Laurent (2005), não passa de um sonho, pois não há nenhuma medida na relação do sujeito com seu gozo. A experiência analítica nos adverte que mui rapidamente advém o despertar desse sonho. Laurent destaca os limites desse hedonismo em duas vertentes: “Um limite é aquele que falamos aqui — o limite para todo discurso sobre o hedonismo aparece através da manifestação da pulsão de morte”. É o despertar do sonho, pois a própria satisfação da pulsão é limitada, nunca está saciada e pede mais..., ainda. A aspiração de um gozo sem limites encontrará seu ponto de basta no seu próprio fracasso. O psicanalista não pode falar do hedonismo, pois testemunha que isso rateia.
     Contudo, outra vertente é a do amor, dirá Laurent (2005): “O amor que prefere o nada à satisfação”, o amor que faz suplência ao fato de que a relação sexual não existe, dirá Lacan ([1972]1985), pois introduz a falta, o vazio, a ausência, o intervalo e, por essas lacunas, “trata o Outro como um objeto que falta e que se deseja”, mesmo sem garantias.
     Para tratar o trauma nos corpos, a forma como cada um vive o impossível de ler e dizer da nossa época e nas cidades, a psicanálise aposta na presença do analista que, com seu desejo e mesmo sua insistência, se oferta como um objeto que pode se imiscuir entre tantos objetos e, ao se deixar consumir aposta na contingência do encontro — que pode ou não acontecer — uma aposta que por essas veredas possa irromper a força de um novo amor — o amor de transferência. O analista, ao se fazer consumir, pode provocar um gosto novo: a satisfação de falar, oferta uma nova modalidade de degustação — a transferência — e aposta que, a partir da pulsão ali engendrada, pode-se alcançar o amor e, quem sabe, instaurar por essas trilhas, um desejo que não seja anônimo, que possa dar algum tempero a essa vida que vai além da vida dos corpos.


1 Elisa Alvarenga em entrevista concedida a Glacy Gonzales Gorski, Cleide Pereira Monteiro, Margarida Assad e publicada na revista da Delegação Paraíba Falasser, Campina Grande, n. 6, 2012.

REFERÊNCIAS
  BRISSET, F. O; SANTIAGO, A. L.; MILLER, J. Crianças falam! e têm o que dizer. Belo Horizonte: Scriptum, 2013.
  LACAN, J. A agressividade em psicanálise (1948). In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 104-126.
  LACAN, J. Introdução ao comentário de Jean Hippolite sobre a “Verneinung” de Freud (1954). In: Escritos. Tra-dução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 370-382.
  LACAN, J. Introdução teórica às funções da psicanálise em criminologia (1950). In: ______. Escritos. Tradu-ção de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 127-151.
  LACAN, J. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
  LACAN, J. O seminário, livro 20: mais,ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
  LACAN, J. Radiofonia (1970). In Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 400-447.
  LAIA, S. Demissão do pai, domínio da mãe e violência urbana. In: Revista Agente Digital. n. 4 - Revista Digital de Psicanálise. Salvador: Instituto de Psicanálise da Bahia, dez. 2007.
  LAURENT, E. A crise do controle da infância. In: BRISSET, F. O; SANTIAGO, A. L.; MILLER, J-A. Crianças falam! e têm o que dizer. Belo Horizonte: Scriptum, 2013.
  LAURENT, E. Psicanálise e violência: sobre as manifestações da pulsão de morte – Entrevista com Éric Lau-rent. In: DEREZENSKY, E; MACHADO, O. (Org.). A violência: sintoma social da época. Belo Horizonte: Scriptum, 2012.
  LAURENT, É. O objeto a pivô da experiência analítica. In: Opção Lacaniana, n. 49. São Paulo: Eolia, 2005.
  MILLER, J.-A. As profecias de Lacan. In: Le point, Paris, 18 ago. 2011.