11/04/14

Trauma nos corpos, violência nas cidades

Miquel Bassols
     Vivemos em uma época na qual as experiências traumáticas em massa fazem parte do cotidiano. É um fenômeno da nova realidade aumentada e promovida especialmente pela difusão global e imediata de informações e de imagens que permitem assistir, às vezes “ao vivo”, às explosões de violência que se sucedem nas diversas partes do mundo.
     Não se trata tanto de uma banalização do mal ou da própria violência, —segundo a conhecida expressão de Hannah Arendt à propósito de Eichmann e o nazismo—, mas de sua elevação como um novo objeto que brilha com sua obscura presença no zênite social. Inclusive a violência mais arbitrária e sem um objeto determinado se converteu ela mesma em um objeto que vem no lugar da Coisa freudiana, das Ding, inominável e sem representação possível. A fascinação pela violência chega assim até o mais íntimo e ignorado do fantasma em cada sujeito. Até o ponto de que a violência dirigida pelo sujeito em direção aos outros não se distingue muitas vezes da violência dirigida contra si mesmo.
     Poderíamos chegar a falar, inclusive, de uma sublimação da violência, de sua elevação como objeto à dignidade da Coisa? A fascinação que produz mostra e encobre, por sua vez, com sua tela a relação mais íntima de cada sujeito com a pulsão de morte, esse oxímóron que reúne em um mesmo ponto a força da vida e sua própria destruição. Nada existe de “instinto natural” na violência humana, como poderia se supor no reino animal. Não existe, de fato, instinto violento na inumanidade do humano. Trata-se de um dos produtos inerentes à cultura, em cada uma de suas formações simbólicas, e isso, desde que para Freud nossa civilização se funda no ato simbólico do assassinato do pai pela horda primitiva. Com o resultado paradoxal de que os filhos se proibiram aquilo que era seu primeiro motor: o acesso ao gozo do Outro, ao gozo das mulheres que o mito freudiano atribui ao pai originário.
     O ato violento mostra com frequência este paradoxo: se proíbe o objeto que era seu suposto motor, sua suposta causa final. A chamada “violência de gênero”, a violência contra as mulheres que alcança em várias partes do mundo a condição de epidemia, é um exemplo do paradoxo que na língua espanhola cai como uma frase feita: “A matei porque era minha!” A frequente consequência é que o sujeito mesmo do ato se dá depois da morte, redobrando o rechaço de saber a causa de seu primeiro ato. A figura do terrorista suicida, tão fascinante para algumas culturas e que foi elevado como paradigma do novo herói desde o 11 de Setembro, é outra forma de colocar em ato o alcance final da pulsão de morte sobre o próprio sujeito. É a pulsão que rodeia seu objeto, um objeto distinto da causa do ato, causa sempre velada por trás da tela do fantasma. Assim, o real da violência não aparece nunca nas telas, só fica indicado pela própria desaparição do sujeito do significante, escrito $, ante ao objeto que o causa, escrito a.
     Por outra parte, assinalamos que esta tela mais ou menos fascinante do fantasma ante o real da passagem ao ato violento, especialmente quando se trata de experiências traumáticas de massa, tende a fazer desaparecer a singularidade do sujeito como resposta do real. Dito de outra maneira: não existe experiência coletiva da morte, só existe experiência um por um, em sua singularidade irredutível. Existe, com efeito, um fenômeno de identificação grupal que às vezes tem um primeiro efeito apaziguador para o sujeito de uma experiência traumática, e que se toma então como objeto terapêutico promovendo esta identificação. Mas o que ajuda na identificação com o grupo, a solidariedade das identificações, deixa sempre à espera a elaboração do mais singular do fantasma de cada sujeito como tela frente ao real, sempre imprevisível. O efeito de identificação não deveria ocultar então o irredutível daquela singularidade, a singularidade mesma da experiência de ter um corpo antes de chegar a sê-lo por uma identificação com o outro, com a imagem especular.
     Este fato é de especial importância quando se trata de abordar o tratamento de sujeitos que tem sofrido experiências traumáticas de massa, como a que teve lugar, por exemplo, nos atentados do 11 de Março de 2004 em Madrid, na estação de Atocha. Nossos colegas madrilenos puderam constatar, na Rede de atenção que colocaram em marcha para atender aos sujeitos daquela experiência, um fato do que devemos extrair um ensino. Em cada caso, o que se revelava como mais importante, como o nó real da experiência traumática, não era tanto o que ocorreu, o que se podia compartilhar com o Outro da comunidade, com o Outro do grupo que havia sofrido a mesma experiência e com o que podiam identificar-se. Em cada caso, o que aparecia como irredutível à identificação, como aquilo que se repetia de maneira incessante na terrível recordação ou no pesadelo diário, era algo que não havia chegado a ocorrer, mas que, precisamente por isso, não cessava de não realizar, não cessava de não escrever na realidade de sua vida, voltando uma e outra vez como o furo do real impossível de localizar nessa realidade: a impossibilidade de haver ajudado a pessoa cujo corpo estava agonizando justo ao lado do seu, no trem anterior ao que explodiu, o trem que se perdeu e que o sujeito já não poderá tomar nunca mais, o trem que já não cessará para sempre de não tomar… Em cada caso, a experiência traumática girava ao redor de um real que não cessa de não escrever, distinto de qualquer outro.
     Uma orientação clínica se deduz de tudo isso: a possibilidade de um verdadeiro trabalho de luto sobre a experiência traumática deve ter em conta, de maneira muito especial, este nó do real ao redor do qual gira toda elaboração significante. E a reconstrução das identificações, em primeiro lugar, ali onde velam este real.
     Sim, “um momento mais e a bomba explode”, para retomar de novo o exemplo que Lacan citou do linguista na hora de situar o real do trauma no simbólico da linguagem. Em algum lugar a bomba não cessa de não explodir para cada sujeito, esperando sua resposta em um encontro sempre falho. O real do trauma é assim uma chamada a espera de resposta na experiência analítica a que o analista convoca em cada sujeito.
     Um testemunho foi especialmente impactante para mim nos acontecimentos que evoquei e que traumatizou a vida da cidade de Madrid naquele azarado 11 de Março. Trata-se daquele da assistente dos serviços de urgência que se apresentaram de imediato à dantesca cena do desastre depois da explosão das bombas nos vagões. A primeira coisa que se escutou, surpreendidos no terror, foram os distintos sons dos telefones celulares que tocavam no bolso das vítimas. Eram chamadas sem resposta possível, chamadas perdidas para ninguém, chamadas perdidas que se fizerem presentes, cada uma, um real impossível ao que havia que responder.
     Digamos, pois, que o analista é o que pode acompanhar ao sujeito a dar uma resposta, sempre singular e imprevisível, a chamada perdida do real do trauma.

Março de 2014
Tradução: Lilany Pacheco
Revisão: Ernesto Anzalone