11/04/2014

Por que a violência?

Henri Kaufmanner • Diretor
     Em julho de 1932 Einstein escreveu a Freud solicitando sua ajuda. Em nome do Instituto Internacional de Cooperação Intelectual (ICCI), buscava iniciar uma correspondência com o pai da psicanálise e a partir dessa gerar um fascículo em torno das relações entre o Direito e o Poder. A ideia dessa publicação era auxiliar os esforços pela paz da Liga das Nações, instituição a qual o ICCI estava subordinado. A Liga das Nações, criada após a Primeira Grande Guerra, tinha como função principal regular as relações internacionais após o conflito, estabelecendo um limite ao poder dos estados quando se tratava de ir além de suas fronteiras.
     Einstein mostrava-se preocupado com a ineficácia de tal iniciativa. Ele acreditava que as nações deveriam se submeter ao poder e decisões desse órgão legislativo supranacional, contudo isso se daria se houvesse por parte das mesmas uma renúncia incondicional de sua soberania. Reconhecendo uma intimidade entre Lei e Poder, ele problematizava, em sua carta a Freud, os motivos que levariam a impossibilidade desta instituição legislativa exercer o poder sobre as demais nações afiliadas. Entre as conjecturas sustentadas pelo físico estava a crença que, certamente, algum problema de ordem psicológica estaria na base de tal dificuldade e, por se reconhecer incapaz de alcançar as verdades da mente humana, recorreu ao auxílio de Freud. Interrogava se seria possível controlar a mente humana de modo a torná-la imune as “psicoses de ódio e destrutividade”.
     Freud não esconde sua surpresa diante das indagações de Einstein. Não eram essas as perguntas para as quais acreditava que seria convocado a responder, não se recusando, contudo, a enfrentar a tarefa que lhe foi demandada.
     Logo no inicio do desenvolvimento de sua resposta, Freud insere uma mudança fundamental no eixo da conversa proposto por Einstein, o que vai lhe permitir seguir o encadeamento de suas ideias. Modificando a proposição que lhe foi apresentada, ele resolveu não se ocupar da intimidade entre Direito e Poder, mas, ao inserir no lugar desse último a palavra “nua e crua” da Violência ele abriu um novo campo para articular suas ideias. Freud explica que, aparentemente, haveria uma antítese entre direito e violência e que, contrariamente, a esta aparência inicial, ele se ocuparia em demonstrar que na verdade um derivava do outro. Passeando então por elaborações já presentes em textos como Totem e Tabu ou Psicologia das Massas, discorreu sobre os caminhos que levariam da violência à lei.
     Estamos diante de um Freud do mal estar na civilização, tendo já estabelecido os conceitos de pulsão de morte e compulsão a repetição, conceitos que, sabemos bem, dariam todo um novo estatuto a psicanálise e ao real de sua prática. Para Freud, a violência era um dado a priori da condição humana. Ao longo de sua carta, ele explicara como essa seria suplantada pela união dos indivíduos e, a lei, como consequência, representaria o poder desses que se uniam. Essa lei, que seria a força da comunidade, assinalou que seria, ainda, assim mesmo violência, pronta a se dirigir contra qualquer indivíduo que se voltasse contra essa força da comunidade. 
     Para evitar que essa força se perdesse e que um recrudescimento da violência de um indivíduo pudesse novamente se sobrepor ao poder dos que se uniam, é que teriam sido criadas as leis e as instituições que zelariam pelos interesses comuns que essas leis representavam. A manutenção desses interesses comuns levaria a vínculos emocionais  entre os membros dessa comunidade, sendo esta, segundo Freud, a verdadeira fonte de sua força.
     Foi esse o eixo que orientou a resposta a Einstein na correspondência que acabou por fim sendo nomeada como “Por que a Guerra?
     A violência somente seria suplantada pela transferência de poder a uma unidade maior com poder coercitivo - o que não deixaria de ser também violência. Tal unidade maior somente se manteria como consequência dos laços emocionais de seus membros. Esses laços emocionais, Freud explica para Einstein, têm por nome técnico a Identificação. Mas, de fato, ele não acreditava que o mundo das ideias pudesse superar a força real pois tal crença desprezaria o fato de que a lei por si só é violência!
     Freud, ainda em sua carta a Einstein, vislumbrava que o caminho para enfrentar essa dominância da pulsão de morte escancarada na guerra, seria uma aposta em Eros - o que poderia manter os vínculos emocionais entre os homens. Esses se dariam por duas vertentes. Na primeira, o sujeito toma o outro como objeto de amor, sem contudo visar a finalidade sexual. Freud ainda ressalta que a psicanálise não deveria se envergonhar em falar do amor. Na outra via, encontramos a identificação, o que permite aos homens compartilhar interesses comuns e com isso manter seus laços, uma comunhão de sentimentos que, segundo Freud, seria em grande parte a base de sustentação da sociedade humana.

     O Encontro Brasileiro

     Em novembro acontecerá em Belo Horizonte o XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. Escolhemos como nosso tema “Trauma nos corpos, violência nas cidades”. 
     A correspondência entre o Pai da Psicanálise e um dos Pais da Física pareceu-me bem interessante, até mesmo como um contraponto ao nossos tempos, em que o Outro não existe. Um tempo em que as unidades maiores, reiteradamente, revelam sua incapacidade insistentemente denunciada na escrita dos cartazes das ruas ou nos posts das redes sociais. Elas não mais representam!
     A Escola, proposta por Lacan, e seus dispositivos já refletia sua preocupação com as novas formas que a violência e a segregação apresentavam, particularmente, a partir da Segunda Grande Guerra e a emergência de um mundo de mercados comuns. As unidades maiores não se faziam mais a partir dos laços dos indivíduos, mas refletiam os avanços do discurso da Ciência e seus imperativos de controle. Para ele, era preciso pensar a Escola a partir do singular, mais além do pai e como resposta ao Campo de Concentração.
     Posteriormente, Lacan nos apresentou a novidade da entrada em cena  do Discurso do Capitalismo. Este, ao rejeitar a castração, deixava de lado, excluía as coisas do amor. Com as ofertas do consumo  e o tamponamento do impossível da relação sexual pelos gadgets, o discurso do capitalismo subverte a possibilidade de que cada sujeito tenha, em seus S1s, um suporte singular de sua identificação. O S1 passa a funcionar como um imperativo de gozo, um empuxo à satisfação a partir dos objetos ofertados pelo Outro do mercado, produtos cada vez mais presentes, frutos da aliança entre Ciência e Capital. Assim, a experiência do trauma - os efeitos vividos pelo sujeito a partir da incidência d’Alíngua em seu corpo e que sempre retornam exigindo uma resposta - vê-se tomada pela experiência padronizadora do consumo. O imperativo hedonista do consumo não se faz na esfera do amor e dos laços identificatórios. As compulsões, tão presentes hoje em dia, mostram esse impossível de se satisfazer pelos objetos da tecnologia, sendo sempre necessário um objeto a mais ou um mais avançado. 
     Deste modo, em nossos dias, assistimos ao aumento da violência em todas as cidades, aumento comprovado por índices cada vez mais impressionantes. Experimentamos isso no dia a dia de nossas vidas. Nos consultórios, a cada paciente, escutamos relatos que cada vez mais demonstram a proximidade da violência na vida de cada um, tornando esse tema ainda mais urgente. Acompanhamos, também, um avanço cada vez mais significativo das práticas de controle científicistas, incidindo sobre os efeitos do trauma, perpetuando o silêncio. Politicas segregacionistas que pareciam esquecidas ganham mais força e novos adeptos. 
     A orientação lacaniana nos instrumentaliza na busca de caminhos pelos quais possamos operar, não somente da derrisão do imperativo de gozo, mas a partir da abertura de possibilidades singulares do sintoma, da invenção de cada um para o impossível reiterado pela experiência do trauma. A psicanálise é uma aposta de que mais além da irrupção da violência, por detrás do silêncio, é possível encontrar os elementos para um novo laço. Um laço que se amarre a partir da identificação do sujeito ao fazer singular de seu sintoma ou a partir de novas formas de amor que, contrariamente ao “amódio”, pode se sustentar na diferença e no impossível da relação sexual. 
     Nós psicanalistas nos vemos diante do desafio ainda maior de manter nossa aposta no sujeito, no sintoma, e numa ação política que nos permita atuar na defesa do espaço para a fala dos corpos.
     Nós da EBP convidamos a todos os interessados a partilhar conosco essa aposta.