11/04/2014

Os destinos do amor-ódio

Maria Josefina Sota Fuentes
     O tema de trabalho que a Diretoria de Cartéis da EBP escolheu para 2014, aos 50 anos do Ato de fundação de Lacan, retoma os fundamentos da Escola e do próprio dispositivo do Cartel. Dessa maneira, será também a ocasião, tal como dirá posteriormente Lacan, de “articular o que ali está como pivô de tudo que se institui pela experiência analítica: o amor”1.

     Uma Escola de “trabalhadores decididos” já implica uma resposta à maneira como a Associação Internacional de Psicanálise concebeu o final de análise a partir da identificação ao analista e da liquidação da transferência, tese que Lacan rejeita propondo-nos a “transferência de trabalho”. Assim, com os restos fecundos das transformações do amor de transferência ao longo da análise, Lacan funda uma Escola à serviço, não dos analistas, mas da psicanálise, colocando em causa o desejo do analista, sem “lavar as mãos” em relação ao aspecto libidinal em jogo.
     Lacan, contudo, não propõe nenhuma ideologia do amor como um ideal do final de análise, lembrando inclusive que “não existe seguro do amor, porque ele seria também seguro de ódio”2.  O amor, paradoxal desde a descoberta freudiana, motor e obstáculo ao tratamento, não deixou de revelar, ao longo da própria história da psicanálise, sua face mais obscura, ou melhor, a ambivalência no passeio às vezes infernal pela face única da banda de Moebius, onde o amódio pode ser explosivo e até mesmo violento.
     Assim, com este tema (e seus vários desdobramentos que procuraremos elucidar neste Boletim) – e que servirá também de eixo de trabalho do XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, tal como foi precisamente desenvolvido no argumento por Sérgio Laia –, convidamos a todos os cartelizantes a buscar uma articulação entre a questão singular de cada um e o tema que este ano nos convoca, colocando a céu aberto em Belo Horizonte seus trabalhos no evento-cartéis.
     Recentemente, na École de la Cause Freudienne, alguns AE foram convidados a falar sobre “O amor de transferência”, em uma atividade proposta por Bruno de Halleaux e animada por Anne Lysy, que gentilmente nos concederam a autorização para traduzir e publicar os textos apresentados pelos colegas, e que divulgaremos neste Boletim. A eles nosso especial agradecimento.
     Se com Lacan podemos entender por que a reparação kleiniana pode ser um beco sem saída aos impasses do amor-ódio, com o texto de Anaelle Lebovits-Quenehen, “Nem Deus, nem Diabo”, ela nos indica como, em seu caso, encontrou uma saída para não fazer do ódio o destino fatal do amor de transferência.

1 Lacan. J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 55.
2 Lacan, J. “O aturdito”. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 477.