11/04/2014

Nem Deus, nem Diabo

Anaelle Lebovits-Quenehen
Os paradoxos do amor de transferência 
     Freud1 fazia do amor de transferência um amor verdadeiro. Lacan segue Freud nesse aspecto, considerando que a transferência leva ao seu mais alto ponto “[...] a questão do que chamamos amor autêntico, eine echte Liebe2 . Dito isso, quando ele o define como tal, ele não faz do amor de transferência um amor real e nem mesmo um amor que daria conta do real.

     Parece-me que é preciso, nessa perspectiva, manter unidas estas duas proposições: por sua vez, o amor de transferência é verdadeiro e adjacente ao real do gozo enquanto ele lhe responde, enquanto ele o trata e, ao mesmo tempo, ao gozo se opõe, no sentido em que o amor de transferência, como todo amor, se funda na afirmação de que de dois podemos fazer um só, afirmação feita para relativizar a solidão radical, cuja tomada de consciência é almejada pela análise. 
     Assim sendo, o real do gozo só pode ser cerceado passando pela verdade e pelo amor de transferência que sustenta a elaboração dessa verdade. Ele é amor verdadeiro exatamente na medida em que está completamente tomado pela verdade que sustenta. A função do amor de transferência é então paradoxal: ele é um meio de aceder ao real do gozo e o único acesso possível ao que está em jogo no discurso analítico. E ele aí o supre por ser, justamente, ele mesmo, mais verdadeiro que real. 
     Assim, existe um tempo para gozar por amar o analista e crer-se amado por ele, no contexto de um saber que lhe é suposto, um tempo em que esse amor é a condição para aceder à verdade do ser que leva à falta-a-ser e, na mais radical descontinuidade, há um momento onde gozar desse amor torna-se freio à análise, pois ela visa exatamente o real como fora-do-discurso e supõe um cessar do gozo em relação à verdade mentirosa.


De um outro amor 
     Eu amava o analista, antes mesmo de tê-lo encontrado. Eu já havia falado com alguém, uma analista. A experiência, entretanto, havia se esgotado rapidamente. Ela não dizia uma palavra, abandonando-me com meu embaraço. Este outro era um homem – o que, sem dúvida, mudava a situação –, além disso, ele era estimado por minha mãe, que dele já havia me falado, possuía os mesmos diplomas que meu pai e, com eles, eu pensava, um saber que vai além de qualquer diploma, o conhecimento que conduz à felicidade, aquele do qual os filósofos fazem, até Kant, o telos, a finalidade de toda filosofia. Ele também tinha a vantagem inestimável de estar vivo, e meu pai já não o era mais. Isso é o que eu posso dizer do amor de “pré-transferência”. 
     O amor de transferência, porém, foi selado sob outra coisa. O acolhimento do analista foi de uma suavidade extraordinária, fora do padrão, fora da norma. Foi no contexto desse fora do padrão que ele pôde me enviar algumas interpretações precisas, e que eu pude recebê-las, antes de tudo, alegremente e, por vezes, com uma risada. A mais marcante do começo foi a de "19/20"3. Confrontada com a perda do meu pai e sentindo-me sugada pelo furo nos semblantes que essa perda havia exibido, a solução de identificação à qual eu me apegava, pretendendo ser tão brilhante quanto e como ele, sustentava-se somente à custa de uma mortificação do desejo que me singularizava. Essa interpretação abriu uma primeira fenda na imagem idealizada do pai. Ela me abriu a possibilidade de vislumbrar a finitude do Outro. E isso era só o começo. 
     Ocorreu-me um pouco antes de partir, que todas as vezes em que fui confrontada com o impossível do sexual e com a solidão que ele indica, a verdade mentirosa da fantasia respondia na dimensão do ser: ser uma mulher em perigo. Está exatamente aí uma significação que sustentava, com algumas variações, uma versão da impotência do salvador, inclusive do analista que foi, desde o início, solicitado para esse lugar amável. Quando falo aqui de impotência, entendamos, trata-se de impotência no que concerne o que as miragens do ser promovem em termos de conhecimento capaz de descrever a relação sexual, ou seja, um conhecimento que inclua o saber sobre o real do sexual. 
     Foi somente após ter podido referenciar essa impotência diante do impossível, que ela nomeia e trata ao mesmo tempo de uma maneira necessariamente equivocada, que eu deixei o analista. É que este furo no saber que uma análise leva a identificar, para com ele consentir e lidar, é correlativo do Um sozinho, do corpo que goza, e para além das ficções do ser, dá sinal do que está em jogo.
     Este é, sem dúvida alguma, um dos destinos analíticos do amor de transferência, o de tornar-se mais digno do que ele de fato foi.

De uma nova dignidade do laço com analista
     Mas poderia ser diferente, como sugerido por Lacan em uma passagem do Seminário 20 que me surpreendeu o suficiente para que eu tivesse vontade apresentá-lo esta noite: 
     A abordagem do ser, não é aí que reside o extremo do amor, o verdadeiro amor? E o verdadeiro amor – certamente não foi a experiência analítica que fez esta descoberta, cuja modulação eterna dos temas sobre o amor carrega suficientemente o reflexo – o verdadeiro amor desemboca no ódio.4 
     Eis aqui a leitura que faço: no que diz respeito às ficções do ser, estamos certamente no amor verdadeiro, isto quer dizer, mentiroso. Este amor é o mesmo que permite associar, sonhar, ir e voltar ao analista, suscitar as interpretações que levam ao conteúdo da existência, quando "caminhamos sem sair do lugar", como lugar onde o amor verdadeiro se esvazia o suficiente para dar lugar a uma separação do analista. O ódio poderia muito bem ser um dos destinos do amor de transferência, quando o analista nada pode fazer para livrar seu analisando do real do gozo com o qual ele se afronta, e que se situa em uma forma de gozo intocável, mas que também tem seu estilo para o melhor ou para o pior. Este poderia ser o seu destino, quando colocam esse analista, no lugar de Deus, como sugere Jacques-Alain Miller5 baseando-se em Freud, e é sabido que Deus não cumpre com suas promessas fantasiadas. Esse poderia ser o destino do amor de transferência se imputássemos ao analista a responsabilidade por essa descoberta em vez de fazermo-nos responsáveis e de extrairmos as consequências que nisto se impõem. 
     Melhor do que no ódio de transferência que ainda faz consistir o Outro, ou no amor do real (pois podemos realmente amar o real?), digamos que me parece possível que o quantum de libido investido na análise se encontre investido a serviço do discurso analítico, no qual somos sustentados por esta nova aliança do sujeito e do saber que a análise produz. A admiração que eu tenho pelo homem do desejo que é aquele que foi o analista não envelheceu nem um pouco, mas não espero nada mais de seu desejo em relação ao meu... Eu não espero mais que ele dê contornos à minha substância de gozo. Isso alivia, provavelmente, e emana libido para a causa analítica nos tratamentos que faço como analista, mas também na transferência que tenho com a Escola, que permite manter vivo este discurso analítico por outros meios. 
     É, portanto, um dos paradoxos mais sensíveis do discurso analítico que o amor de transferência convoca. No processo de tratamento analítico, todo ato analítico estabelece, com o consentimento do analisando, uma transferência positiva que implica, em última instância, o fim desta fixação e da produção de um ato por parte do analisando que passa para analista. Este ato contido em uma performance, este “acabou” (a partir do qual apenas a experiência analítica do analisando termina e produz uma satisfação), tem um estatuto especial. Trata-se aí, como observava Éric Laurent, da emergência de um novo dizer que abre mão do apoio do Sujeito Suposto Saber e da garantia que ele implica quando falamos no curso de uma análise. Este é, talvez, o primeiro ato da nova série de atos para os quais é chamado o sujeito quando ele está na posição de analista.
     Eu intitulei este texto “Nem Deus nem Diabo”, mas percebo, finalmente, que poderia também ter tido como título “De um outro ato”.

Tradução: Cristiane Barreto
Revisão: Sérgio Laia

1 FREUD, S. (1914). “Observaciones sobre el ‘amor de transferencia`”. In Obras Completas, 4ª ed. Madrid: Biblioteca Nueva, 1981, tomo II, p. 1694.
2 LACAN, J. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 119. “Não é um dos interesses menores da experiência da transferência colocar para nós, mais adiante, talvez, que nunca se pôde carregá-la, a questão do que chamamos amor autêntico, eine echte Liebe”. 
3 Na França toda avaliação escolar usa o 20 como referência maxima. (N.E.)
4 LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p. 200.
5 MILLER, J.-A. O ser e o Um. Curso inédito.