20/05/2014

Eixos Temáticos

Inhotim: Olafur Eliasson, Viewing Machine
aço inoxidável e metal, 2001-2008
Atividades


     A programação do XX Encontro Brasileiro será composta de Plenárias e de apresentações de trabalhos em Mesas Simultâneas. Desta vez, contaremos ainda com Entrevistas, bem como com Seminários de AME (Analistas Membros da Escola)trabalhos provenientes de cartéis da EBP.
Eixos Temáticos

A solidão do Um nos corpos e nas cidades
     Imerso na multidão das cidades, cada corpo pode experimentar-se comoUm-sozinho, dando lugar à frequente conjunção entre solidão e anonimato. Ao sustentar que uma constituição subjetiva é transmitida por um desejo não-anônimo, Lacan permite orientar nossas intervenções em diversos lugares tomados pela violência e marcados pelo fracasso ou mesmo pela ausência de um tal desejo. Entretanto, os testemunhos sobre análises que chegaram efetivamente a um fim apresentam-nos outra faceta da solidão do Um: cada corpo vivo, a seu modo, se satisfaz sem que esse gozo coincida propriamente com o “individualismo contemporâneo” ou se deixe necessariamente acompanhar por alguma presença do Outro – a parceria se faz apenas com a alteridade encarnada por um corpo que se goza. Assim, é importante averiguar se os atos violentos são tentativas de nomeação frente à invisibilidade anônima que segrega muitos corpos nas cidades.  Trata-se ainda de investigar se as possíveis nomeações em jogo na violência das cidades são ou não da mesma ordem dos nomes que, ao longo de uma experiência analítica, se extraem dos corpos marcados pela ação do trauma. Visa-se, também, a discernir as consequências que a ação lacaniana, para suas intervenções frente à violência nas cidades, pode retirar da elucidação, ao longo de uma análise, da parceria solitária de cada um com seu sintoma.

Incidências do trauma na diferenciação dos sexos
     Segundo Freud, o trauma é uma experiência na qual um corpo, por um curto período de tempo, esteve às voltas com um aumento de excitação cuja intensidade o impediu de ser manejado, gerando perturbações duradouras sob a forma de sintomas que vêm substituir alguma coisa que não aconteceu. O tratamento que Freud de início destinou aos sintomas implicava a rememoração e a elaboração de, paradoxalmente, umacontecimento sexual que comportava um valor traumático por descarregar no corpo essa soma de excitação que não conseguiu ser manejada. Mas a descoberta freudiana acaba se deparando com “restos sintomáticos”, inclusive no final de um tratamento. Com Lacan, o que não acontece é a reciprocidade, a proporção entre os sexos e é a essa inexistência da relação sexual que o sintoma responde. Assim, a experiência analítica verifica como um parceiro sexual pode ser um sintoma e também como, em cada caso, um sintoma faz as vezes de um parceiro sexual. É importante, então, discernir como, em parcerias heterossexuais ou homossexuais, o trauma pode ter incidências diferentes em homens e mulheres, realizando essa diferenciação ou, ao contrário, sendo resultado da inexistência da relação sexual. Outra via é demonstrar como homens e mulheres lidam com o que se descompassa, não sem traumas, entre os sexos. Será ainda pertinente discutir as possíveis repercussões dessas incidências do trauma na diferenciação dos sexos também no que é designado como “violência contra as mulheres”, “assédio de menores” e “segregação das minorias”.

O mal, sua marca nos corpos, e a vida
     Para Lacan, o gozo é uma substância que se imiscui nos corpos e que, mesmo adquirindo tal intimidade, tende a não ser reconhecida pelos próprios corpos onde ela se aloja. Portanto, cada corpo se goza sem discernir propriamente o que está em jogo nessa satisfação e, nessa perdição, a saída muitas vezes se impõe pela segregação do que é diferente, inclusive no campo mesmo do gozo. Essa rejeição da diferença do gozo – experimentado como alteridade no próprio corpo ou, mais comumente, como a própria diferença corporificada pelo outro – permitiu a Lacan anunciar a ascensão dessa forma do mal que é o racismo, em um mundo cada vez mais impelido pela vivência fraterna das diferenças. De que modo essa inquietante concepção lacaniana do racismo se apresenta, hoje, em diferentes manifestações da violência nas cidades? Se a experiência analítica implica um saber lidar com (savoir y faire) o gozo estranhamente entranhado nos corpos, como também poderemos nos servir dela para abordar os atos violentos que proliferam nas cidades sem que seus agentes façam qualquer demanda a um psicanalista? Considerando que há modos de gozo que mortificam os corpos, mas que tampouco há vida em corpos apartados do gozo, como a vida pode ainda resistir aos malefícios de certos modos de gozo alojados nos corpos?

Os destinos do amor
     Além de fazer da transferência – concebida por Freud como investimento amoroso do analisante no analista – um dos “conceitos fundamentais da psicanálise”, Lacan a conjugou a outro desses conceitos: à pulsão. Na história da psicanálise, o final de uma análise chegou a ser tematizado como “liquidação da transferência”, mas, se a transferência se conjuga à pulsão que é uma “força constante”, essa liquidação, para a orientação lacaniana, se esfuma como uma quimera. Interessa-nos tematizar “os destinos do amor” no final de uma análise, mas também nas formas do que Lacan chamou deamódio, ou seja, no amálgama amor-ódio verificado, por exemplo e em níveis diferentes, tanto na chamada “transferência negativa”, quanto em várias manifestações da “violência nas cidades”. Outra vertente é aquela vislumbrada por Miller quando inverte a direção na qual a transferência é mais comumente assimilada como amor endereçado ao saber. Nessa inversão, é o amor que se apresenta primeiro em sua vertente libidinal para, em outro momento, dar lugar ao saber frente ao qual agentes da violência nas cidades e corpos traumatizados muitas vezes respondem com um “não querer nem saber”. No caso deste eixo, contaremos com textos provenientes sobretudo de carteis da Escola Brasileira de Psicanálise. Afinal, Lacan fala da transmutação do “trabalho de transferência” (em jogo ao longo de uma experiência analítica) para a “transferência de trabalho” (decisiva para os laços que dão lugar a uma Escola de Psicanálise). No viés dessa transmutação, também o Cartel do Passe, estimando o que se produz por ocasião de um fim de análise, nomeia Analistas da Escola (AE) que testemunham, cada qual em seu estilo, o surgimento de um novo amor.

Psicologia das massas, análise do eu... e a deriva das pulsões
     A trama das massas, segundo Freud, se faz nas relações entre o objeto do eu, o respectivo ideal desse mesmo eu e um “objeto exterior” (por exemplo, um líder) investido como ideal identificatório para todos. Fora dessa articulação com o ideal do eu e com o objeto exterior ou ideal da massa, Freud não assinala qualquer laço de união de um objeto do eu com outro objeto de outro eu: é cada um com seu objeto. Ora, no mundo atual, destituído de ideais e permeado de objetos que nos atiçam, as formações das massas não se reduzem a cada um com seu objeto? Também ao longo de uma experiência analítica, encontraremos uma redução assim e, graças ao exemplo freudiano da boca que se beija a si mesma, localizamos, nesse circuito autoerótico, a satisfação das pulsões. Importante, então, discernir as diferenças entre a tendência massificadora contemporânea de cada um se deixar tomar pelos objetos de sua satisfação e, no percurso de uma análise,  a redução de cada um ao objeto que lhe permeia a economia libidinal e o trauma no corpo. Pode-se ainda averiguar a contribuição da psicanálise de orientação lacaniana para a elucidação do que hoje se trama como “gangues”, “arrastões” e “rolezinhos”. Por fim, considerando as recentes manifestações que tomaram as ruas de várias cidades brasileiras e que ainda se apresentam como enigmas para vários referenciais de análise do “comportamento das massas”, será oportuno verificar se a psicanálise de orientação lacaniana pode lê-las de um modo que faça efetivamente diferença.

Informações sobre apresentação de trabalhos
Até o dia 7 de setembro de 2014, os textos deverão ser enviados para a Comissão Científica (email: xxebcf.cientifica@gmail.com). Solicita-se que cada texto se oriente por um dos Eixos Temáticos explicitados acima e que o indique logo em seguida ao título. O número máximo de caracteres é 6000, incluindo espaços e notas, na fonte Times New Roman. A precisão, a clareza conceitual, a articulação com um Eixo Temático, o limite de caracteres serão as principais referências da Comissão Científica para a escolha dos textos que vão compor as Mesas Simultâneas. 
Ao enviar um texto, quem o redigiu precisa já ter se inscrito como participante do XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. Inscrições »