11/04/2014

Conexão: "Clínica do Testemunho"

Entrevista publicada no Almanaque on-line nº13 com os integrantes do Cartel "Clínica do Testemunho": Jorge Pimenta, Lucíola Macêdo, Maria Clara Pêgo, Simone Pinho Ribeiro e Guillermo Belaga1 (mais-um).


Guillermo Belaga, em seu texto "Incidências da psicanálise nos dispositivos públicos", publicado nesta edição do Almanaque on-line, afirma que, além do trauma inicial, metaforizado na história da psicanálise como trauma de nascimento (que configuraria a entrada no tempo, no mundo do Outro, no mundo da linguagem), se faz presente também o trauma como acontecimento, nas contingências de uma vida, irrompendo nas representações simbólicas que sustentaram o sujeito até aquele momento, provocando-lhe a angústia generalizada.
Em seguida, ao comentar a apresentação, por Daniel Riquelme, do atendimento de um caso relacionado às violações de direitos vivenciadas durante a tragédia da ditadura militar na Argentina, Belaga reflete sobre o modo como a psicanálise se situa para operar frente a um vazio subjetivo, consequência de um trauma individual e social. Ao comentar a assistência que algumas instituições oferecem ao sujeito que foi afetado pela repressão e terrorismo político na Argentina, Belaga nos alerta para o risco da lógica do asilo e da proteção, o que não possibilitaria uma mudança em sua posição subjetiva.
No Brasil, o golpe militar, trauma histórico, completa 50 anos em abril. Entre outras ações de reparação das perseguições e torturas perpetradas pelos aparelhos repressivos da ditadura, há uma proposta do Ministério da Justiça, que são as chamadas "Clínicas do testemunho". Entrevistamos os integrantes do cartel assim nomeado, inscrito na EBP, que está trabalhando a articulação teórica entre os conceitos de acontecimento, trauma, memória e reparação e a possibilidade de oferta de atendimento psicanalítico a vítimas e familiares.
  1. O que são as clínicas do testemunho? Como e por que se constituiu o cartel? Quais os temas e como se articulam?
Jorge Pimenta: Clínica do Testemunho é um dispositivo de atenção psicológica às vítimas da ditadura civil-militar que teve lugar no Brasil entre 1964 e 1985. Trata- se de proposta da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça (MJ), constante do programa de reparação que o Estado Brasileiro definiu a partir de exigências da sociedade civil organizada. O programa está voltado a todos aqueles que foram perseguidos pelo regime ditatorial. O MJ, através da Comissão  de Anistia, já mantém um programa de reparação econômica a perseguidos que perderam seus empregos em instituições públicas ou privadas, quando tiveram que sair exilados do Brasil ou se encontravam presos, já que muitos foram demitidos e mesmo expulsos do trabalho. A proposta da Clínica do Testemunho traz uma inovação, pois, além de ser um programa de atenção psicológica aos perseguidos, também aí inclui o atendimento de seus familiares. Em edital público, o MJ escolheu, primeiramente, quatro projetos (dois em São Paulo, um no Rio de Janeiro, um em Porto Alegre e outro em Recife) que estão atendendo vítimas e ainda preparando e capacitando profissionais para atuar nessa atividade. Investe-se em construção de estratégias de resposta e reparação de danos. Essa é uma iniciativa já conhecida em outros países da América Latina, como Argentina e Chile, nações que, como Brasil, Uruguai e Paraguai, passaram por terríveis experiências de ditaduras civis-militares que cometeram atos de lesa-humanidade, como extermínios, torturas, prisões, exílios e violências diversas a cidadãos que ousavam dispor de sua liberdade de opinião e expressão.
O cartel Clínica do Testemunho se constituiu ao pensarmos e propormos que o tema trauma e seu tratamento é um assunto presente desde a criação da psicanálise por Freud. Para nós, o Cartel trata de um tema que tem contornos políticos importantes, toca a clínica psicanalítica em seu âmago e dialoga com o tempo presente. A questão ética que nos mobiliza é a mesma que Lacan nos propôs: a de que o analista tem de se haver com seu lugar e sua época. Queremos trabalhar a questão do testemunho e seu tratamento clínico a partir de experiências de determinados sujeitos com o trauma que lhes adveio com prisões, torturas, assassinatos e desaparecimento de familiares, exílios políticos, perda de empregos e violências diversas.
A investigação no Cartel centra-se nas seguintes questões:
  • é possível uma narrativa do inenarrável do real traumático?
  • o que fazer com um resto que ainda insiste e insistirá sempre?
  • o que é possível e o que não é possível esquecer?
  • esquecer, elaborar, sintomatizar?
  • como tratar o tema da transmissão intergeracional do trauma?
  • o que fazer com a questão da herança pelo esquecimento? O meu tema específico é “O indizível do trauma”.
Lucíola Macêdo: Meu tema é “Testemunho e escrita do trauma”. A escolha desse tema se articula a uma pesquisa em curso, a partir da qual tenho investigado de que modo, no contexto da Segunda Guerra Mundial e do pós-guerra, o escritor Primo Levi encontrou-se com os limites da representação e com o caráter lacunar do testemunho. De quais recursos de linguagem se serviu para enfrentar a ilegibilidade e a opacidade da experiência traumática.
Simone Pinho Ribeiro: O cartel se constituiu a partir de nosso interesse em comum sobre o tema. Cada um de nós possui pesquisas anteriores ou em andamento que tocam de perto a questão do testemunho. No meu caso, trabalhei alguns anos com o tema “Psicanálise e campo de concentração”, que veio a resultar em uma Dissertação de Mestrado. Meu tema inicial no cartel era “O testemunho e o feminino”, mas ele anda um tanto claudicante. Venho rondando um novo tema, que se articula ao tema de Jorge e Clara e que concerne ao silêncio.
Maria Clara Pêgo: As Clínicas do Testemunho são voltadas para o atendimento de pessoas que foram torturadas durante a ditadura militar.
Também o testemunho público dado por estas pessoas, fora do consultório, faz parte das ações estimuladas pelo projeto das Clínicas do Testemunho.
O cartel se faz necessário para que cada um dos participantes possa trabalhar individualmente o tema da tortura e suas consequências traumáticas para o psiquismo humano.
Meu tema é “O trauma e o Silêncio”. O de Guillermo é “o analista ‘trauma’ e o traumático: tática, estratégia, política”.
O enfoque o trauma e do testemunho serão relevantes e articularão os temas individuais.
  1. O tema de trabalho lançado para a Sessão Clínica do IPSM-MG para este ano conjuga os conceitos de trauma e real, destacando que o acontecimento traumático introduz um antes e um depois, uma ruptura. A pergunta dirigida aos núcleos de pesquisa interroga os praticantes da psicanálise sobre as incidências do trauma, "pedaços de real" que irrompem em sua prática. O que vocês consideram que seja o trauma na experiência pessoal e  profissional de  vocês? Com que  referências conceituais vocês estão trabalhando?
Lucíola Macêdo: Farei um recorte levando em consideração o tema geral que nos coloca a trabalho no cartel: o trauma de 64. Parece-me que o que se atualiza do trauma de 64, e daí toda a pertinência das políticas de reparação — e, na esteira dessas políticas, as Clínicas dos Testemunhos — tenha-se dado principalmente em função do silêncio que se criou em torno do desaparecimento de pessoas e das práticas de tortura perpetradas no Brasil nessa ocasião. Nada foi dito e/ou investigado pós-golpe. Uma grande sombra de silêncio instalou-se não apenas durante a ditadura militar, como também após o restabelecimento da democracia em nosso país. Estamos no horizonte de uma das formas de negacionismo: a negação do trauma. O traumático, nesse caso específico, não se encontra apenas no encontro com o horror e suas marcas indeléveis, mas, sobretudo, na construção de traços factícios e falsas pistas (veja-se o caso do deputado Rubens Paiva, recentemente investigado e esclarecido pela Comissão Nacional da Verdade) a fim de dissimular os verdadeiros traços e de negar o horror, afirmando, desse modo, que o horror não existe nem nunca existiu.
Jorge Pimenta: Trabalharemos teoricamente a questão a partir de uma bibliografia que retoma a discussão da angústia no Seminário 10 de Lacan, a questão do trauma generalizado e a orientação lacaniana para sua abordagem clínica, discutindo o que chamamos de ação lacaniana a partir da orientação lacaniana proposta por Jacques-Alain Miller, com destaque para a questão da urgência subjetiva, seu manejo, a eficácia e a presença da psicanálise nos dispositivos da cidade, inclusive aqueles fora do “setting clínico” tradicional, que são nossos consultórios e o divã. Ciência e política do trauma, quando se sabe que há uma insistência no trauma que os standards clínicos não atendem: acontecimentos traumáticos, sua memória — qual reparação é possível e o que fazer com o que insiste e a violência sobre os corpos, corações e mentes? É possível haver atravessamentos? O que fazer com a singularidade de algo que é “inominável”, o que restou para esses indivíduos que passaram por essas experiências e o que fazem hoje com isso?
Entendo que esse tema do testemunho é fundamental para a formação do analista, e sua investigação enseja o que alguns colegas já puderam elaborar com seus finais de análises e o passe na Escola de Lacan. Com destaque para o que se poder fazer com os furos, lacunas, que deixam marcas e cicatrizes impossíveis de serem apagadas ou zeradas. Como inventar algo que possa funcionar como um enlaçamento possível, logrando que o sujeito possa obter um sopro vital necessário para continuar vivendo, trabalhando?
Maria Clara Pêgo: Sou ex-presa política e fui muito torturada. Considero que o trauma que sofri está assim entrelaçado:
  • - a tortura sofrida; militar; Ocidental.
  • - o falecimento do meu pai, quando estava sob tortura;
  • - o cumprimento de parte da pena em isolamento de 1 ano, em quartel
  • - a saída e o retorno ao Brasil, após viver 9 anos na antiga Alemanha
Tanto na minha experiência pessoal como profissional trabalho com os conceitos freudianos de trauma.
  1. Na experiência de vocês, em que sentido a psicanálise contribui em relação a um trauma histórico, inscrito no coletivo? Ou, como a construção de uma narração própria e a consideração de uma singularidade, de uma subjetividade, se localiza no campo das políticas públicas, que visam ao universal e à recomposição do tecido social?
Simone Pinho Ribeiro: Tentarei enfrentar, de maneira breve, essa pergunta tão abrangente. A noção de trauma encontra-se na origem da psicanálise e é um de seus alicerces. Lidamos com os efeitos de mais de 20 anos de ditadura militar, não apenas em nossa vida cotidiana, mas  também em nossa prática diária. Vale lembrar aqui um fato curioso, a psicanálise, no Brasil, começou a ser praticada nos anos 1960, sendo assim, os psicanalistas brasileiros se viram diante dessa questão desde sempre. Seria interessante explorar as possíveis implicações desse fato. Quanto à questão das políticas públicas, no ponto em que elas se ligam à saúde, penso que o universal se refere ao acesso, pois elas visam ao acesso universal aos serviços de saúde. É claro que esse objetivo nunca se concretizou de fato, até hoje. Evidentemente, a ciência, o capital e as normas institucionais e administrativas direcionam as coisas no sentido de uma homogeneização que vai de encontro à psicanálise. Mas é preciso observar que a psicanálise encontra um espaço dentro de algumas instituições muito mais amplo e ferramentas de assistência pública muito mais abrangentes no Brasil de hoje, me parece, do que em alguns países da Europa. A despeito do imensurável inerente à psicanálise e seus resultados, de sua aposta em soluções singulares e, principalmente, de sua ética, a psicanálise acaba por encontrar um lugar dentro de algumas políticas públicas. Lugar esse que, por mais improvável, é esse mesmo que a pergunta coloca, o de possibilitar a construção de uma narração própria e a consideração da singularidade.
Maria Clara Pêgo: Através da ligação da psicanálise com a sociologia e a política podemos inscrever o trauma individual no histórico do coletivo e no contexto universal, permitindo a abertura de políticas públicas de atendimento psicossocial e psicanalítico, como é o caso das Clínicas do Testemunho.
  1. O que justifica a presença da psicanálise no campo da assistência aos traumatizados? Como transformar o ato de retorno à experiência "traumática" em atravessamento? Este poderia ser um indicador do que se pode esperar dessa assistência?
Lucíola Macêdo: Em relação à Clínica do Testemunho, o trabalho analítico é sensível às lacunas, mas também aos possíveis enlaces e quanto à invenção de cada um naquilo que concerne o trauma, a história e a memória. As concepções de trauma e memória em jogo, numa clínica como essa, fazem uma enorme diferença, assim como permitem uma orientação. Os “atravessamentos” não se fazem com a pura e simples rememoração ou lembrança do vivido; eles terão que “se fabricar” por meio de outra modalidade da memória; de uma memória inscrita no corpo — por meio da repetição e também no jogo fundamental da letra em sua iteração, que, fabricando-se, poderá constituir um novo acesso ao real que não estava lá, dentro das caixinhas das lembranças. Em psicanálise, a memória é inseparável do esquecimento, o que significa que seria preciso deslocar o esquecimento no texto, mas sem apagar suas conexões com o real. Assim sendo, o sintoma não seria apenas o arquivo rasurado que conteria a parte esquecida, denegada, foracluída ou censurada da experiência traumática, mas um modo de escrever uma relação inédita com a própria história.
Maria Clara Pêgo: O estudo do trauma, tal qual Freud o fez, justifica a presença da psicanálise no campo da assistência aos traumatizados e penso que o desejo de superação desse trauma (atravessamento) faz-me participar desse cartel, no intuito de colaborar com a assistência a outros traumatizados.

1 Almanaque on-line agradece a Guillermo Belaga que contribuiu para essa entrevista com texto publicado na rubrica Encontros dessa edição. Texto que provocou a elaboração das questões propostas aos membros do cartel, a quem agradecemos igualmente a contribuição para o tema de trabalhado pelo IPSM-MG, bem como para o registro do evento histórico 50 anos do Golpe Militar, o qual consideramos não ser sem consequências para a prática da psicanálise no Brasil e para os contornos do trauma nos corpos e da violência em nossas cidades.