20/05/2014

Argumento (atualizado)

Sérgio Laia (comissão Científica)
Duas expressões – “trauma nos corpos” e “violência nas cidades” – compõem o título do próximo Encontro promovido pela Escola Brasileira de Psicanálise (EBP). Em um país como o Brasil, mas sem que as reduzamos a essa dimensão nacional e geográfica, elas podem ser apreendidas por uma relação do tipo causa-efeito: em uma versão mais midiática (ou mesmo estatística), é dito que a violência nas cidades provoca trauma nos corpos ou, ainda, por um viés, digamos, mais psicológico, afirma-se que o trauma dos corpos produz violência.

Por sua vez, a psicanálise de orientação lacaniana convoca-nos a outro tipo de leitura: “violência nas cidades” comporta, sem dúvida, o que se passa no âmbito do “espaço público” enquanto que “trauma nos corpos” aponta mais particularmente para um “espaço privado”, mas Lacan, desde sua “Proposição sobre o psicanalista da Escola” (1967), ensina que, da “hiância” mais íntima da experiência analítica, perfila-se o “horizonte” do que é extensível para a psicanálise. Assim, com Lacan, nos distanciamos da relação linear e planificada do tipo causa-efeito para afirmar uma topologia na qual a apresentação da violência na cena pública poderá ser abordada levando em conta o que se passa de modo não menos exterior (porque também estranho, invasivo e dilacerante) na intimidade do que traumatiza os corpos (e a qual temos acesso pela experiência clínica com o um por um).

Interessa-nos, então, no XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, sustentar seminários, trabalhos e discussões em que a elucidação do trauma nos corpos empreendida ao longo de experiências de análises contribua para a tematização e a produção de respostas para a violência nas cidades. Igualmente interessa-nos, ao longo desse mesmo Encontro, averiguar em que e como tal violência interroga a experiência psicanalítica que procura responder ao trauma dos corpos se valendo da fala cujo silenciamento é o que, muitas vezes, deflagra a violência. Na 26ª lição do Seminário 5, Lacan distingue a violência e agressividade porque a primeira, sendo “exatamente o contrário” da fala, não teria como ser “recalcada”, “simbolizada” e, portanto, extrapola “o que é analisável, ... interpretável”. Ora, Lacan tampouco deixará de afirmar (sobretudo no que Jacques-Alain Miller tem lhe destacado como “o último ensino”) o quanto a experiência analítica — segundo também testemunham os Analistas da Escola (AE) a propósito dos finais de suas próprias análises –  implica encontrar novos modos de viver a pulsão e o que dos sintomas resta como avesso ao recalque, alheio ao símbolo, refratário à interpretação, opaco à decifração analítica, apresentando-se como “pedaços de real” inassimiláveis ao que faz sentido, mas que tocam o corpo e dão-lhe um sentido (tomado, aqui, como orientação). Certamente, esses novos modos de vida e esses restos sintomáticos em jogo na experiência analítica, mesmo se confrontando com um limite da fala e comportando outras leituras do que é traumático nos corpos, não são propriamente qualificáveis de violentos, mas sua elucidação parece-nos profícua para abordarmos a irrupção da violência nas cidades.

Nas diferentes atividades propostas para o XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, visamos a considerar, portanto, “trauma nos corpos” e “violência nas cidades” como expressões provenientes de espaços diferentes e que ganham, com a psicanálise de orientação lacaniana, uma abordagem que, compartilhando elementos e noções, confere-lhe usos que podem chegar a ser radicalmente diversos no âmbito público e  no âmbito privado sem deixarem de ter, entre si, uma inquietante proximidade. Desses elementos e noções, para concluir este argumento e almejar sua elucidação ao longo da preparação do XX Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, destacamos: a nomeação concernente à satisfação pulsional, ao gozo e o que se impõe como inominável; a declinação (a ser tomada como "decadência" e como "variação de forma") dessa referência que é o Nome-do-Pai como Outro da Lei; os confrontos com o supereu materno; os destinos do amor (inclusive quando ele toma a face mais obscura do ódio ou mesmo quando ele "acaba"); as respostas aos acontecimentos imprevistos; as funções da fala e do falo; a proliferação da exceção que a dilui ou a isola na solidão; as diferenças sexuais.

Sérgio Laia – Coordenador da Comissão Científica

Atividades


     A programação do XX Encontro Brasileiro será composta de Plenárias e de apresentações de trabalhos em Mesas Simultâneas. Desta vez, contaremos ainda com Entrevistas, bem como com Seminários de AME (Analistas Membros da Escola) e trabalhos provenientes de cartéis da EBP.

Eixos Temáticos

A solidão do Um nos corpos e nas cidades
     Imerso na multidão das cidades, cada corpo pode experimentar-se como Um-sozinho, dando lugar à frequente conjunção entre solidão e anonimato. Ao sustentar que uma constituição subjetiva é transmitida por um desejo não-anônimo, Lacan permite orientar nossas intervenções em diversos lugares tomados pela violência e marcados pelo fracasso ou mesmo pela ausência de um tal desejo. Entretanto, os testemunhos sobre análises que chegaram efetivamente a um fim apresentam-nos outra faceta da solidão do Um: cada corpo vivo, a seu modo, se satisfaz sem que esse gozo coincida propriamente com o “individualismo contemporâneo” ou se deixe necessariamente acompanhar por alguma presença do Outro – a parceria se faz apenas com a alteridade encarnada por um corpo que se goza. Assim, é importante averiguar se os atos violentos são tentativas de nomeação frente à invisibilidade anônima que segrega muitos corpos nas cidades.  Trata-se ainda de investigar se as possíveis nomeações em jogo na violência das cidades são ou não da mesma ordem dos nomes que, ao longo de uma experiência analítica, se extraem dos corpos marcados pela ação do trauma. Visa-se, também, a discernir as consequências que a ação lacaniana, para suas intervenções frente à violência nas cidades, pode retirar da elucidação, ao longo de uma análise, da parceria solitária de cada um com seu sintoma.

Incidências do trauma na diferenciação dos sexos
     Segundo Freud, o trauma é uma experiência na qual um corpo, por um curto período de tempo, esteve às voltas com um aumento de excitação cuja intensidade o impediu de ser manejado, gerando perturbações duradouras sob a forma de sintomas que vêm substituir alguma coisa que não aconteceu. O tratamento que Freud de início destinou aos sintomas implicava a rememoração e a elaboração de, paradoxalmente, um acontecimento sexual que comportava um valor traumático por descarregar no corpo essa soma de excitação que não conseguiu ser manejada. Mas a descoberta freudiana acaba se deparando com “restos sintomáticos”, inclusive no final de um tratamento. Com Lacan, o que não acontece é a reciprocidade, a proporção entre os sexos e é a essa inexistência da relação sexual que o sintoma responde. Assim, a experiência analítica verifica como um parceiro sexual pode ser um sintoma e também como, em cada caso, um sintoma faz as vezes de um parceiro sexual. É importante, então, discernir como, em parcerias heterossexuais ou homossexuais, o trauma pode ter incidências diferentes em homens e mulheres, realizando essa diferenciação ou, ao contrário, sendo resultado da inexistência da relação sexual. Outra via é demonstrar como homens e mulheres lidam com o que se descompassa, não sem traumas, entre os sexos. Será ainda pertinente discutir as possíveis repercussões dessas incidências do trauma na diferenciação dos sexos também no que é designado como “violência contra as mulheres”, “assédio de menores” e “segregação das minorias”.

O mal, sua marca nos corpos, e a vida
     Para Lacan, o gozo é uma substância que se imiscui nos corpos e que, mesmo adquirindo tal intimidade, tende a não ser reconhecida pelos próprios corpos onde ela se aloja. Portanto, cada corpo se goza sem discernir propriamente o que está em jogo nessa satisfação e, nessa perdição, a saída muitas vezes se impõe pela segregação do que é diferente, inclusive no campo mesmo do gozo. Essa rejeição da diferença do gozo – experimentado como alteridade no próprio corpo ou, mais comumente, como a própria diferença corporificada pelo outro – permitiu a Lacan anunciar a ascensão dessa forma do mal que é o racismo, em um mundo cada vez mais impelido pela vivência fraterna das diferenças. De que modo essa inquietante concepção lacaniana do racismo se apresenta, hoje, em diferentes manifestações da violência nas cidades? Se a experiência analítica implica um saber lidar com (savoir y faire) o gozo estranhamente entranhado nos corpos, como também poderemos nos servir dela para abordar os atos violentos que proliferam nas cidades sem que seus agentes façam qualquer demanda a um psicanalista? Considerando que há modos de gozo que mortificam os corpos, mas que tampouco há vida em corpos apartados do gozo, como a vida pode ainda resistir aos malefícios de certos modos de gozo alojados nos corpos?

Os destinos do amor
     Além de fazer da transferência – concebida por Freud como investimento amoroso do analisante no analista – um dos “conceitos fundamentais da psicanálise”, Lacan a conjugou a outro desses conceitos: à pulsão. Na história da psicanálise, o final de uma análise chegou a ser tematizado como “liquidação da transferência”, mas, se a transferência se conjuga à pulsão que é uma “força constante”, essa liquidação, para a orientação lacaniana, se esfuma como uma quimera. Interessa-nos tematizar “os destinos do amor” no final de uma análise, mas também nas formas do que Lacan chamou de amódio, ou seja, no amálgama amor-ódio verificado, por exemplo e em níveis diferentes, tanto na chamada “transferência negativa”, quanto em várias manifestações da “violência nas cidades”. Outra vertente é aquela vislumbrada por Miller quando inverte a direção na qual a transferência é mais comumente assimilada como amor endereçado ao saber. Nessa inversão, é o amor que se apresenta primeiro em sua vertente libidinal para, em outro momento, dar lugar ao saber frente ao qual agentes da violência nas cidades e corpos traumatizados muitas vezes respondem com um “não querer nem saber”. No caso deste eixo, contaremos com textos provenientes sobretudo de carteis da Escola Brasileira de Psicanálise. Afinal, Lacan fala da transmutação do “trabalho de transferência” (em jogo ao longo de uma experiência analítica) para a “transferência de trabalho” (decisiva para os laços que dão lugar a uma Escola de Psicanálise). No viés dessa transmutação, também o Cartel do Passe, estimando o que se produz por ocasião de um fim de análise, nomeia Analistas da Escola (AE) que testemunham, cada qual em seu estilo, o surgimento de um novo amor.

Psicologia das massas, análise do eu... e a deriva das pulsões
     A trama das massas, segundo Freud, se faz nas relações entre o objeto do eu, o respectivo ideal desse mesmo eu e um “objeto exterior” (por exemplo, um líder) investido como ideal identificatório para todos. Fora dessa articulação com o ideal do eu e com o objeto exterior ou ideal da massa, Freud não assinala qualquer laço de união de um objeto do eu com outro objeto de outro eu: é cada um com seu objeto. Ora, no mundo atual, destituído de ideais e permeado de objetos que nos atiçam, as formações das massas não se reduzem a cada um com seu objeto? Também ao longo de uma experiência analítica, encontraremos uma redução assim e, graças ao exemplo freudiano da boca que se beija a si mesma, localizamos, nesse circuito autoerótico, a satisfação das pulsões. Importante, então, discernir as diferenças entre a tendência massificadora contemporânea de cada um se deixar tomar pelos objetos de sua satisfação e, no percurso de uma análise,  a redução de cada um ao objeto que lhe permeia a economia libidinal e o trauma no corpo. Pode-se ainda averiguar a contribuição da psicanálise de orientação lacaniana para a elucidação do que hoje se trama como “gangues”, “arrastões” e “rolezinhos”, onde todos estão fissurados pela busca de satisfação. Por fim, considerando as recentes manifestações que tomaram as ruas de várias cidades brasileiras e que ainda se apresentam como enigmas para vários referenciais de análise do “comportamento das massas”, será oportuno verificar se a psicanálise de orientação lacaniana pode lê-las de um modo que faça efetivamente diferença.